CATOLICISMO E HOMOAFETIVIDADE – PARTE II

(CONTINUAÇÃO)
Eduardo Galeano - Sonhando um corpo como festa

Por Padre Paulo Bezerra.

  1. Há um “novo arco-íris” no cenário
                A novela “Amor à vida”, da Globo, no último capitulo levado ao ar no dia 31 de janeiro de 2014, saciou o desejado e esperado “beijo gay”, protagonizado pelos personagens Félix e Niko, interpretados respectivamente pelos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso. Os pontos de audiência subiram aos píncaros entre ovações de vitória (talvez a maioria dos espectadores) e impropérios de condenação. As novelas não impõem padrões comportamentais. Elas expõem o que está por aí…

            A revolução econômica e política depois dos anos 70, – lembra-nos Comblin, – transferiu Corpos entrelaçados“poderes com repercussões imensas na vida diária das pessoas como na vida social” – a revolução cultural. “Um elemento importante dessa revolução foi, e ainda é, a crítica sistemática de todas as instituições, denunciadas como máquinas de poder e de repressão da liberdade e da personalidade individual” [1]. Não escapou nenhuma das instituições, a começar pela família, educação, Igreja(s) chegando hoje à feroz crítica do Estado estampada nas manifestações de rua que, sobretudo a partir de junho de 2013, evidenciaram que o “gigante acordou”. Ainda impossível prever se acordou de um sonho, apenas, ou se despertou para forjar uma “nova aurora”… Desprestigiadas pela crítica e evidenciada a sua decadência inúmeras instituições e associações entraram no caminho da corrupção que, no dizer de Comblin, “se tornou a nova instituição social”.

            A “revolução cultural” traz a marca do “despertar da liberdade pessoal” e trouxe muitos “valores positivos” e, sobretudo, “valores definitivos contra os quais é em vão lutar”. Enumera-os Comblin: a emancipação da mulher; o despertar da consciência de liberdade dos jovens, “ainda que contaminada pelo consumismo”; uma consciência religiosa libertada do “estilo penitencial de espiritualidade” calcada sobre as exigências de sacrifícios e mortificações em vista dos méritos diante de Deus-juiz. “Depois da revolução cultural, milhões de homens e, sobretudo, de mulheres saíram da Igreja, não por motivos de doutrina ou de crenças, mas porque não aceitavam mais o estilo penitencial da espiritualidade que se ensinava. (…) o que rejeitam não são os dogmas, menos ainda o Evangelho, mas a austeridade de vida, a preocupação constante pelo pecado e o medo que se infundia na consciência do pecador. Os jovens fogem disso como da peste. Não querem nem saber ” [2].

            Depois de séculos de “espiritualidade penitencial” sem páscoa parece-nos “tatuada”, na alma católica, a compreensão de sexo como pecado. Sedimentou-se tal tipo de compreensão filosófico-religiosa de natureza humana como “algo, um conteúdo mais ou menos fixo ou mais ou menos imutável ao qual atribuímos este conceito. Com frequência ouvimos expressões como: ‘isto é da natureza’, ‘isto é contra a natureza’, ‘os seres da natureza’, ‘pecados contra a natureza’ e assim por diante. (…) Estabeleceu-se desta forma uma ordem natural que muitas vezes foi identificada à vontade de Deus ou mais precisamente, à vontade de um conceito sobre Deus. (…) Criou-se assim uma espécie de limite entre a vontade de Deus e a vontade dos seres humanos, como se fosse uma barreira que não poderá ser ultrapassada, uma barreira que funciona igualmente como limite para a vida e a moralidade dos seres humanos” [3] .

Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.
Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.

Em todas as épocas e em todas as culturas, no entanto, houve mulheres e homens que sentiram atração por pessoas do próprio sexo. A satisfação de desejos e prazeres está aí a questionar certa visão de “lei natural”. É possível falar da homoafetividade como uma constante na história da humanidade. São preconceituosas as teorias de que os “desejos homossexuais só haveriam de manifestar-se em sociedades que se encontram em situação de declínio. As artes e literaturas de todas as épocas descrevem relações sexuais e de amizade, aventuras e histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo. Tais descrições são provenientes de sociedades e de desenvolvimentos de toda espécie, prósperos e em declínio[4].

            Há um “novo arco-íris” no cenário contemporâneo. A “saída do armário” tomou conta das mega-manifestações das Paradas Gays. “A partir de meados da década de 70, o tema do amor homossexual começou a furar a barreira da censura e dos setores mais reacionários, para chegar até as capas de revistas de circulação nacional – caso da Isto é que, dois anos antes da Time, apresentou em sua capa duas mãos masculinas ternamente enlaçadas” [5]. Na mesma intensidade e direção foram o teatro e o cinema.

            O “novo arco-íris” LGBTs surge depois de catastróficas tempestades e torrenciais chuvas de granizos condensadas pelo gelo da homofobia levada às mais baixas temperaturas pelo pensamento único e deontológico. A bandeira foi desfraldada de tal maneira que recolhê-la será contrassenso . Suas sete cores não se impõem. Tão somente se expõem e se apresentam. Como o Arco da Aliança do Livro Sagrado do Gênesis mendiga também  um lugar novo para a humanidade: nunca mais o antigo dilúvio! Convida à comunhão, ao prazer, à festa, à fecundidade de todo relacionamento, mesmo que nem sempre reprodutivo da espécie humana.

            A existência humana é um caleidoscópio que se reparte em cores. No dizer de Antônio Moser, “se há algo que nos intriga é o caráter enigmático da vida humana e de todos os seus componentes.  (…) Entre as questões mais enigmáticas encontram-se as que se referem à sexualidade. Por isso é compreensível que, desde sempre, e das mais diversas formas, a humanidade tenha se interrogado sobre a proveniência e o sentido desta força estranha e determinante da vida humana (…)” [6]. E, deste caleidoscópio, as mãos GLBTs não são as únicas a manipulá-lo, embora aptas a tal.

  1. Conclusão: aspirações intuitivas
                Enquanto a sexualidade for “engessada” em categorias dogmáticas (teologicamente desencarnada)… Enquanto for motivo de “curiosidade sobre a vida alheia” (antropologicamente desprezada)… Enquanto for “reprimida” (psicologicamente não considerada)… Enquanto for produto mercadológico de violência e de frustração (socialmente despersonalizada)… Enquanto for reduzida a parâmetros culturais (filosoficamente desconhecida)… Enquanto for devassada, chantageada, criminalizada… é porque “temos medo do que somos e inibimos nossas expressões naturais, uma vez que ficamos tolhidos por injunções deformadoras de nossas personalidades” (Eduardo Hoonaert).

            Vergados, então, sob a “espada de Dâmocles” rejeitamos, conscientes ou não,  que a “sexualidade é uma moradia com muitas janelas abertas para o mundo” [7].

AutorPe. Paulo Sérgio Bezerra
pároco de Nossa Senhora do Carmo – Itaquera
Diocese de São Miguel Paulista

[1] JOSE COMBLIN, op. cit., p. 40.
[2] JOSE COMBLIN, op. cit., p. 43
[3] IVONE GEBARA, “Visitando o conceito de natureza humana”, in: Concilium Revista Internacional de Teologia, 336 (2010/3), Vozes, Petrópolis, p. 141 [438] – 142 [439].
[4] NORBERT RECK, “Desejos perigosos –  o discurso católico sobre a sexualidade homossexual”, in: Concilium Revista Internacional de Teologia, 324 (2008/1), Vozes, Petrópolis, p. 14.
[5] JOÃO SILVÉRIO TREVISAN. Devassos no paraíso, Editora Max Limonad, São Paulo, 1986, p. 175.
[6] ANTÔNIO MOSER. O Enigma da Esfinge: a sexualidade. Vozes, Petrópolis, 2004, p. 21.
[7] ANTÔNIO MOSER, op. cit., p.35.

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Um comentário sobre “CATOLICISMO E HOMOAFETIVIDADE – PARTE II

  1. lucashpduarte 16 de abril de 2015 / 15:01

    Muito oportuna as palavras. Creio que precisamos falar muito mais sobre o assunto para que possamos nos libertar, sobretudo os clérigos, pois como o próprio texto afirma “parece-nos “tatuada”, na alma católica, a compreensão de sexo como pecado.” Essa “tatuagem” parece até a nossa marca, nossa essência. É urgente o debate. Parabéns pela coragem e lucidez.

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