A evangelização da juventude e o protagonismo juvenil.

Por Eduardo Brasileiro.
 
‘Ritualismos’ e opções pela ‘fuga do mundo’ são a marca majoritária da evangelização das juventudes na Igreja do Brasil.

 

Opção cenográficas que se assemelham a shows buscam fragilizar os participantes para assim se verem tomados por
Celebrações espetáculos, ritualizações da fé, através de discursos e ambientações focadas em mastigar a sensibilidade do jovem e transformá-lo num ser cheio de sofrimento e de pecados, culminando em sua recuperação quando “se encontra com Cristo”. E, sobretudo, a infantilização e dependência do jovem para com a igreja na sociedade de hoje.
 
 
O assunto de evangelização da juventude pouco volta à tona no meio eclesial, bem como nos reduzidos espaços de formação das pastorais da juventude no país. No entanto, a sua perda de prioridade nos condiciona a viver uma histeria coletiva de tendências do marketing e da indústria cultural dentro da igreja e, sobretudo, nas práticas rituais.
 
Em todo o Brasil a prática mais utilizada para evangelizar jovens é tentar afastá-lo do mundo, como se o mundo fosse objeto de afastamento e não de inserção para solucionar seus problemas.
Em todo o Brasil a prática mais utilizada para evangelizar jovens é tentar afastá-lo do mundo, como se o mundo fosse objeto de afastamento e não de inserção para solucionar seus problemas.

Encontros de jovens nas igrejas são marcados principalmente por shows (cristotecas, “barzinhos de Jesus”, etc), celebrações espetáculos, ritualizações da fé, através de discursos e ambientações focadas em mastigar a sensibilidade do jovem e transformá-lo num ser cheio de sofrimento e de pecados, culminando em sua recuperação quando “se encontra com Cristo”. E, sobretudo, a infantilização e dependência do jovem para com a igreja na sociedade de hoje.

 
Poderíamos ficar horas discutindo cada aspecto inerente a esses momentos. No entanto, haja vista que carecemos de espaços de discussão de outras possibilidades, me lanço na contramão do discurso homogêneo de evangelização da juventude e insisto na proposta de um evangelho encarnado no meio do povo e uma espiritualidade engajada em descobrir Jesus nas pessoas, numa proposta reinocêntrica.
 
A prática mais comum dos ensinamentos com a juventude é o enfrentamento com o mundo – onde tudo é mal -, e a criação de um espaço de “fuga da realidade”, fomentando a contenção da discussão dos processos de evolução da adolescência, juventude e a fase adulta, confluindo numa imposição de leis que serão determinantes no amadurecimento, ora de um sujeito fundamentalista, ora de um indivíduo decepcionado com o papel da religião em sua formação.
 
O Papa Paulo VI, implementador das decisões do Concilio Vaticano II, escreveu em 1974, na “Evangelii Nutiandi”,  que “entre evangelização e promoção humana existem laços profundos”. De tal modo, não se pode pensar a evangelização como ação eclesial sem que as preocupações com a promoção humana lhe acompanhem. Ou seja, a preocupação da igreja não deve ser sua autoafirmação nos espaços públicos, com ritualismos e marchas louvando o ego ou um sentimento de pertença a um grupo. Muito pelo contrário, é debruçando-se sobre o ser humano, com todo homem e mulher, e em sua plenitude, é isso que trabalhou a Teologia da Libertação em dar linhas para se pensar uma Pastoral da Juventude.
 
Papa Francisco em visita ao Brasil em 2013, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Papa Francisco em visita ao Brasil em 2013, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Falando em Papa, Francisco optou, a partir de sua raiz latino-americana, enquanto líder da igreja, por humanizar o papado, fortalecendo gestos, preocupações e palavras que encantem os menores. Frisando ações de protagonismo. E, se protagonismo é mover-se, movimentar-se, neste sentido, vale lembrar o difícil gesto da alteridade dentro da prática das juventudes: a missão. Segundo o Papa Francisco no Brasil em 2013, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ): ‘Eu peço que vocês sejam revolucionários, que vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem: que se rebelem contra esta cultura do provisório’ [1]O trabalho com as juventudes implica envolver sua espiritualidade nos tantos marginalizados do nosso tempo.

Debruçar-se sobre a violência contra a mulher nas periferias e nas igrejas, impregnadas do machismo que julga seu corpo, suas vestes e suas escolhas; sobre o genocídio da juventude negra no Brasil; sobre a intolerância religiosa para com as religiões de matriz africana; ou os diversos casos de morte por homo-lesbotransfobia (palavra que não nos deveria parecer estranha); e, sobretudo, sobre a destruição da terra e a morte dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Reconhecer o protagonismo da juventude deve significar um novo olhar sobre aspectos como a equidade de gêneroidentidade negra, ecumenismo, os direitos LGBTS, dentro e fora de nossas igrejas, além do resgate de elementos da cultura indígena sobre o bem viver (sumak kawsay) em nossa espiritualidade.

Campanha Contra o Extermínio da Juventude da Pastoral da Juventude Nacional
Campanha Contra o Extermínio da Juventude da Pastoral da Juventude Nacional

O desafio da evangelização no século XXI é considerar a importância da religião como espaço de aprimoramento, reconhecimento e engajamento de seus dons a partir da proposta de vida comunitária (reinocêntrica), indo na contramão da sociedade de mercado que tudo mercantiliza, consome e depois descarta. O jovem necessita se reconhecer em outros, por isso a importância das rodas, danças circulares, debates sobre a situação social e econômica de sua comunidade e do mundo, de modo que forje sua maturidade para enfrentar os problemas sociais. Se faz necessário ainda vivenciar seu corpo – sem castrações (proibir sexo) -, e repensar o desenvolvimento de seus desejos e sabores, com responsabilidade e cuidado. 

Desse modo, vivências, dinâmicas, facilitações e experiências de encontros com o outro o permitirão dialogar sobre esses processos, e não o oprimir, na descoberta de uma vida afetiva sadia, cordial e aberta ao pluralismo contemporâneo. Por último, desenvolver uma compreensão histórica, fundamentada na espiritualidade do caminho dos mártires da nossa terra, de uma compreensão do reino, da importância da missão e de um horizonte, no qual a fé deve transpassar a vida em serviço e paixão pelos outros.

 

Pastoral da Juventude: Em busca de uma espiritualidade libertadora
Pastoral da Juventude: Em busca de uma espiritualidade libertadora
Nessa tríade se firma o fundamento sobre qual a evangelização da juventude, ou melhor, a educação no seguimento de Jesus, deve ser praticada, numa pedagogia popular, circular e protagonista, que se encontra na comunidade, no corpo e na alma.
 
AutorEduardo Brasileiro,
Sociólogo, coordena a Pastoral da Juventude em Itaquera e é membro da Igreja Povo de Deus em Movimento.
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