Valores fundamentais da sexualidade humana (PARTE I)

Maria Inês de Castro Millen

Fonte: Revista Vida Pastoral
Este artigo pretende abordar a sexualidade humana e seus valores fundamentais a partir do olhar da Teologia cristã. Isso não quer dizer que seja possível desconectar a temática de outros eixos compreensivos, que são essenciais para o entendimento da rica experiência de ser e de se saber pessoa humana, na plenitude e na beleza de suas possibilidades existenciais. O que se quer dizer é que a Teologia será o fio que perpassará um tecido rico de cores, de reentrâncias, de relevos e de outras costuras.

É possível constatar que, na base do cristianismo e, portanto, da Teologia Moral Cristã, está presente, de modo inequívoco, a experiência do diálogo. O Deus cristão é o Deus da Palavra; é, portanto, Aquele que fala. Mas é também o Deus que escuta o clamor do seu povo e que se compromete fielmente com ele. Ao mesmo tempo, pede que o povo o escute, que responda ao seu apelo e que sele com Ele uma Aliança, comprometendo-se com seu projeto. Os acontecimentos bíblicos que revelam o modo como Deus e o ser humano se relacionam mostram o diálogo, na sua verdadeira estruturação, como um percurso ético que se faz urgente e necessário. É por isso que não é possível pensar a sexualidade, no horizonte da Teologia cristã, sem estabelecer reais frentes de diálogo com diferentes realidades:
Diálogo com a realidade enquanto tradição, enquanto história dos povos, contada através dos mitos, das lendas, dos ritos e das diversas expressões das culturas. O que se sabe é que privar o ser humano dos seus arquétipos é condená-lo à crônica enfermidade física e metafísica. Diálogo com a realidade enquanto Tradição, enquanto Palavra de Deus, revelada nas Escrituras. Tradição não como conservação ou preservação de algo imutável do passado, mas como encontro afetivo e efetivo com Alguém, que se faz presente entre nós, como Jesus de Nazaré, o Cristo, o Filho de Deus. Tradição que sinaliza para a realização da Boa Notícia do Reino, a perene atualização no presente do que recebemos no passado e do que esperamos para o futuro. Diálogo com a realidade enquanto Tradição pós-bíblica, sobretudo no Ocidente, onde as categorias do pensamento filosófico mediaram a compreensão racional do evangelho. Diálogo com a realidade a partir da categoria “sinais dos tempos”. O hoje da história exige da Teologia um diálogo sincero com as ciências, com as novas tecnologias, com os responsáveis por uma sociedade plural, policromática, e com todas as pessoas que estão sob a influência de uma nova compreensão e visão de mundo. Assim sendo, a Teologia que reflete sobre a ética cristã da sexualidade só terá plausibilidade se experimentar a abertura a um amplo e respeitoso diálogo transdisciplinar, que leve em conta as diferentes experiências do passado e as realidades da vida presente.
Algumas afirmativas teológicas se fazem necessárias, inicialmente, para traçar o caminho da costura que se pretende, na reflexão aqui assumida: Uma primeira e fundamental afirmação: “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Essa revelação nos diz que a sexualidade é uma das dimensões essenciais do ser humano. O ser humano, criado como ser sexuado, enquanto homem ou mulher, é imagem de Deus, é semelhante a Deus. “E Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a!” (Gn 1,28). Esse texto sinaliza para Deus que confere à sexualidade uma dimensão criativa. O encontro relacional sexuado que o ser humano estabelece aponta para a fecundidade, para uma participação real no projeto criacional. E tudo isso faz parte não de um imperativo, mas de uma bênção, de um dom. Uma segunda e não menos fundamental afirmação é a de que a Palavra, que já era no início e da qual somos imagem e semelhança, se fez carne e veio habitar entre nós (Jo 1,1.14). Deus se faz homem, se faz de carne, se faz humano, sexuado.
Esse fato possibilita a confirmação de que a sexualidade é um componente fundamental da personalidade, um modo de ser pessoa, um modo de se manifestar, de sentir, de expressar, de viver e de se relacionar, na comunicação concreta do amor. Por essa razão é que a sexualidade precisa ser compreendida a partir de uma sadia antropologia que considere as ricas e complexas dimensões do ser humano na perspectiva da unidade básica que o integra e o configura. Fragmentar o humano ou reduzi-lo a uma de suas dimensões produziu e ainda produz muitas teorias e práticas equivocadas que comprometem a essencialidade e a dignidade próprias desse ser criado à imagem de Deus (Bento XVI, 2006 p. 5). Nesse horizonte, apontamos algumas dimensões que não podem ser desconsideradas quando se quer pensar a sexualidade humana com seriedade: a dimensão biológica, que trabalha a sexualidade como impulso; a dimensão psicológica, que aponta a sexualidade como a força integradora e como chave hermenêutica do “eu”; a dimensão dialógica, que pensa a sexualidade como linguagem de pessoas; a dimensão sociocultural, que compreende a sexualidade na perspectiva da hermenêutica e da configuração da realidade social; a dimensão existencial, na qual a sexualidade aparece como forma de existência pessoal; e a dimensão mistérica, que a percebe como abertura para o mistério da pessoa e das relações que ela estabelece consigo mesma, com os outros, com o mundo e com Deus (Vidal, 2002).
A sexualidade, então, está referida ao mistério da pessoa, ao seu núcleo mais íntimo, à sua configuração mais originária. Ela abrange o ser humano todo, durante toda a sua vida. Há, portanto, também, uma perspectiva equivocada, quando se compreende a sexualidade ligada somente à vida adulta e à procriação. O que existe é uma sexualidade difusa, que impregna todo o ser, em todo o tempo de sua vida, e que não está ordenada somente ao relacionamento sexual genital. Outra consideração que ainda precisa ser feita, desde já, é que a sexualidade não é má em si. No horizonte das afirmações teológicas, feitas anteriormente, não é possível esquecer a revelação de que é Deus quem cria o mundo na sua materialidade e temporalidade e nele se encarna. Portanto, a sexualidade é, no máximo, ambivalente. Ao longo da história, ela se apresenta num clima de enigma e mistério, como realidade ao mesmo tempo assombrosa e fascinante. Acarreta, pois, instintivamente, num primeiro momento, uma dose de assombro, receio e suspeita, pois supera o que alguém pode conhecer de si mesmo e dos outros, e o desconhecido é amedrontador. Ao mesmo tempo, desperta a curiosidade, o desejo e a esperança de aproximação entre as pessoas, e esse é o seu lado fascinante.Por causa do medo, surge a tentativa de negar a sexualidade, de escondermo-nos dela, de eliminá-la da vida, como se dela fosse possível prescindir. Ledo engano, que já produziu e ainda produz consequências danosas.
Por causa do desejo, surge a tentativa de fazer dela o eixo enucleador da vida ou de banalizá-la, atitudes que refletem a pretensão de despi-la do seu caráter misterioso. Esses equívocos também não trouxeram e não trazem bons frutos. Nessa perspectiva, busca-se e deseja-se, ao mesmo tempo em que teme-se e rejeita-se. Temor e fascínio são faces de uma mesma realidade. O que não se pode esquecer é que a sexualidade está imbricada no mistério da pessoa, carregada de uma riqueza simbólica e emotiva, que precisa ser considerada e experienciada respeitosamente.A redução da sexualidade, do mistério da pessoa, ao medo ou ao desejo, aponta para alguns riscos. O primeiro risco é o de um falso espiritualismo, que prioriza o pretender viver como anjo quando se tem um corpo. Outro risco é o de um materialismo desconfigurado, um hedonismo que leva ao prazer pelo prazer, ao corpo pelo corpo, à objetivação do outro. Em ambos os casos, há a negação da subjetividade relacional e a não integração das diferentes dimensões que compõem a pessoa, e duas vertentes da Teologia Moral, não muito felizes, tendem a se fortalecer: o rigorismo ou o laxismo.
Na busca do indispensável equilíbrio, uma compreensão positiva da sexualidade se faz necessária. Não é demais repetir que a sexualidade integrada é força positiva, geradora de energia e de bem-estar e que perpassa todo o ser humano. É força que chama à vida, que cria e recria pessoas e realidades. A sexualidade é a identidade: “Eu sou”, “eu sinto que sou”, na relação com outras identidades constituídas. É essa mesma força que é capaz de despertar nas pessoas o amor, o cuidado pelo outro, pela natureza, por si mesmas.Falar de sexualidade no horizonte da Teologia traz, portanto, o desafio de pensar de novo coisas velhas e coisas novas sobre a existência humana. E isso faz com que a tarefa da Teologia Moral, que é a de ter uma palavra verdadeira e significativa sobre a sexualidade humana para este tempo, seja enorme. As razões já são conhecidas, mas não é demais enumerá-las novamente.
Primeiro, o cristianismo do passado trabalhou com pressupostos antropológicos hoje superadose que precisam realmente ser revistos e não mais aplicados. O conhecimento atual sobre o ser humano, em função de uma nova sabedoria conquistada pela humanidade, nos coloca diante de paradigmas compreensivos que não podem nem devem ser desmerecidos. A necessidade real de diálogo com outros saberes se faz premente. Hoje, não se concebe mais que aqueles que são chamados a dizer uma palavra significativa, a orientar o comportamento e a vida das pessoas não se esforcem por conhecer e compreender todas as dimensões da realidade humana, levando em conta que a sexualidade, enquanto força integradora do eu pessoal, é um fato vivo, dinâmico, historicamente condicionado, com influências tanto positivas quanto negativas sobre a vida, refletindo possibilidades evolutivas, mas também involutivas. Segundo, o ser humano atual, apesar de todos os progressos científicos e tecnológicos, de todas as conquistas do conhecimento e da comunicação, vive uma fragilidade, uma fragmentação, um desconforto consigo mesmo e com a sua força sexual criativa. Heidegger referiu-se assim a esse fenômeno:
Nenhuma época teve noções tão variadas e numerosas sobre o homem como a atual. Nenhuma época conseguiu, como a nossa, apresentar o seu conhecimento acerca do homem de um modo tão eficaz e fascinante, nem comunicá-lo de um modo tão fácil e rápido. Mas também é verdade que nenhuma época soube menos que a nossa o que é o homem. Nunca o homem assumiu um aspecto tão problemático como atualmente.
Sendo assim, o ser humano de hoje, como o de ontem, precisa ser compreendido nas suas dores e angústias, nas suas esperanças e sonhos. Desconsiderar a realidade atual, nos seus compassos e descompassos, é ficar respondendo a por caminhar na busca de respostas mais plausíveis para as grandes questões que estão postas.
(CONTINUA SEXTA)
 Maria InêsMaria Inês de Castro Millen é graduada em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora, onde também fez mestrado em Ciências da Religião; graduada em Teologia pelo Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio; e doutora em Teologia pela PUC-RJ. Autora de Os acordes de uma sinfonia – A moral do diálogo na teologia de Bernhard Häring.
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