Onde está seu irmão?

Daniel Souza*

A espiritualidade precisa ser compreendida de maneira ampla. Pode se relacionar com a vivência religiosa, mas também se relaciona com o mais profundo da vida, da existência.

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Na madrugada do dia 16 de abril de 2014, cinco jovens foram vítimas de um grupo de extermínio no Jardim Elisa Maria, localizado na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo (SP). Uma situação bem presente nas periferias das cidades, uma violência que se orienta por classe, cor e territórios bem determinados. Como apresentam alguns dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 30 anos, a violência contra jovens negros, com arma letal, aumentou em 300%. São jovens com baixa escolaridade, que morrem mais no verão, nos finais de semana e à noite. É como se o caminhar pelas vielas das comunidades, entre diálogos, saraus e sambas fosse um constante perambular pelo “vale da sombra da morte”, numa tensão entre o viver e o morrer.

Realidades como estas da Brasilândia provocam algumas reflexões. No meu caso, me pergunto pela espiritualidade. O que a espiritualidade tem a ver com essas vidas, com esses territórios, com essa gente? Na tradição semita, o espiritual não se compreende na oposição ao material, na oposição ao corpo, um imaginário muito presente nos dias de hoje. O espírito (ruah, no hebraico) relaciona-se com o hálito, com o fôlego, o vento corporal que nos faz viver. Assim, o espírito não está fora do corpo, é no corpo. E também não permanece fora das realidades cotidianas, pois é o que impulsiona a vida, movimentando o corpo para as maravilhas do viver.

Além disto, a espiritualidade precisa ser compreendida de maneira ampla. Pode se relacionar com a vivência religiosa, mas também se relaciona com o mais profundo da vida, da existência. Uma espiritualidade fundamental, base de nossa casa-comum. Desta forma, a espiritualidade de uma pessoa ou comunidade, em última instância, é a vontade de viver, o que a inspira, seus desejos, suas utopias. É evidente, no entanto, que há espiritualidades que reforçam situações de morte e exclusão, como a espiritualidade do capital, que dizendo propagar a vida se guia pelo fôlego do sacrifício. Por isso, é importante estabelecer critérios para se interpretar as vivências espirituais, como a compaixão em relação às vítimas que carregam em seus corpos e histórias o peso da cruz da injustiça.

Diante dos cinco jovens da Brasilândia, as espiritualidades precisam ser provocadas para uma vivência que seja guiada não pela transcendência de um fora-mundo, mas a transcendência do corpo da outra, do outro, que, face a face, nos toca em nosso “coração de carne” para passos em compaixão e luta pela construção de uma casa-comum efetivamente justa. Uma espiritualidade que vive o corpo em suas chagas e festas, que se provoca ante aos sangues que clamam da terra, nunca deixando de responder a pergunta feita a Caim: “onde está seu irmão?” (Gn 4.9). Uma espiritualidade que se guia pelos sonhos de uma juventude que quer viver e anunciar a vida ante os sepulcros da violência.

1235526_527036530703754_1524387171_nDaniel Souza é Anglicano, teólogo, membro da Rede Ecumênica da Juventude (Reju), vice-presidente do CONJUVE (Conselho Nacional de Juventudes) e professor de filosofia..

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