Reflexões sobre a sexualidade humana

Maria Inês de Castro Millen*
Corpos entrelaçados
A Teologia Moral traz, portanto, algumas propostas para a reflexão atual sobre a sexualidade humana. A primeira é a de um retorno às fontes bíblicas. A referência moral dos cristãos é Jesus Cristo. Nesse horizonte, é bom recordar o que disse o Papa Bento XVI, na introdução à encíclica “Deus é Amor”: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, assim, o rumo decisivo”. A verdade é esta:
No cerne, no coração, nas entranhas do Novo Testamento está Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem. E a grande novidade da ética cristã está aí revelada. O Pai oferece, agora, tudo. […] Jesus Cristo é a Nova Aliança, aquele que, na unidade com o Pai e na solidariedade com toda a humanidade, declara a verdadeira lei da Aliança: a Lei do Amor. Não um amor qualquer, mas aquele já demonstra do aos seus discípulos, que são convocados a vivê-lo na solidariedade, na oferta e no serviço (Jo 15,12-17) (Millen, 2005).
A Lei do Amor convida a cada um, na liberdade, a “ser para o outro”, a “carregar os fardos uns dos outros” (Gl 5,13b; 6,2). Assim, as perspectivas bíblicas da Teologia Moral, longe de tentar extrair das Escrituras um catálogo de normas para crer e viver, buscam, em sintonia com as propostas do Vaticano II, apreender os temas de destaque da revelação divina para que eles possam nutrir a vida espiritual das pessoas concretas, inseridas na história de seu tempo.

Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.
Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014. Fotos inseridas e de responsabilidade do Blog Teologia da Libertação sem consulta do autor do texto.

A segunda proposta pretende clarear alguns conceitos, como, por exemplo, o de corpo/ corporeidade, o de sexo/sexualidade e o de castidade.

A palavra “corpo” aponta para a realidade objetiva da nossa condição corpórea; realidade visível, tocável, mutável e, talvez por isso, vítima de muitos equívocos e de muitas distorções por parte das culturas, das sociedades e das religiões. Realidade dimensional que não pode ser negada nem tampouco superestimada, pelo simples fato de ser uma dimensão real e indispensável para a vida, na sua perspectiva ontológica e também no horizonte de sua construção histórico-relacional. Não se pode deixar de afirmar que todas as experiências pessoais se realizam e se explicitam no corpo. Por isso, o modo como o percebemos ou como o tratamos se torna fundamental para a compreensão e nomeação do ser.
A palavra “corporeidade” é mais abrangente, se refere ao “eu espiritual-corpóreo” que vive uma experiência única e irrepetível e indica a inteira subjetividade humana, sob o aspecto de sua condição existencial corporal, na configuração constitutiva de sua identidade pessoal. Corporeidade é, portanto, a expressão, o reflexo visível e a realização do ser humano uno e indiviso. É uma noção mais ampla de corpo e, na verdade, se refere à totalidade da pessoa. Assim, é em função de sua condição corpórea que o ser humano assume sua vida segundo as peculiaridades que lhe são próprias: a historicidade, a individualidade e a pertença a uma comunidade humana, sua imanência no mundo e sua vocação à autotranscendência, sua capacidade de revelar-se e de ocultar-se, sua propensão à relacionalidade e ao encontro (Millen; Bingemer, 2005, p. 180).
Quanto às palavras “sexo” e “sexualidade”, é preciso, do mesmo modo, que se faça uma distinção. Sexo também se refere a uma realidade objetiva, ao sexo de cada um na sua dimensão biológica/genital e ao ato sexual em si.
Sexualidade também é conceito abrangente. A palavra surge no século XIX e quer dizer, como já indicado anteriormente, uma energia que abrange a totalidade da vida da pessoa, revelando sua condição de ser sexuado em todas as relações que estabelece com qualquer outro, em todos os tempos de sua vida. Alguns autores hoje afirmam que a moral que estuda a sexualidade não pode ser concebida a não ser no horizonte de uma ética da relacionalidade. Isso porque, durante muito tempo, a sexualidade esteve ligada à vida individual, às questões referentes à pessoa e aos seus desejos e impulsos. Hoje não se pode mais negar a importância da “alteridade” na construção da identidade pessoal. O “rosto” do outro é sempre definidor da identidade e das atitudes daquele que é interpelado por ele.
Outra palavra importante é “castidade”, que, num determinado contexto, chegou a ser considerada a “rainha das virtudes”. Castidade não pode mais ser reduzida à continência sexual, mas mantida em toda a sua pluralidade de significados. A melhor tradução dessa palavra é “nitidez”. Muito provavelmente, nossa castidade vem do latim candeo, que significa embranquecer, com o matiz de uma brancura brilhante, ou melhor, transparente. Dessa palavra, surgem termos como “candor”, “candura”. Viver a castidade significa, pois, viver na transparência, no respeito, na nitidez. É preciso compreender que a palavra castidade não tem sentido apenas sexual: a nitidez, o respeito e a transparência invadem todos os campos da relação humana, até mesmo o do dinheiro e o do poder. Dessa forma, podem existir encontros sexuais, genitais ou não, ou pessoas que vivem “celibatos sexuais” de maneira que não servem para quase nada, por não serem castos (Faus, 1999 p. 65-66).
A terceira quer trazer algumas ideias-chave, revisitadas pela Teologia que se renova com o Concílio Vaticano II. São elas: liberdade, fidelidade, criatividade e responsabilidade. À luz do seguimento de Jesus, todas as pessoas são chamadas à liberdade – “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1) –, mas só existe verdadeira liberdade na fidelidade, pois toda liberdade está referenciada a algo. Para os que creem, a fidelidade sinaliza para a lei inscrita nos corações, que faz com que as pessoas redescubram o projeto que Deus tem para a humanidade. Essa liberdade fiel torna o ser humano responsável e criativo. A responsabilidade, considerada a ideia-mãe da moral cristã, é a capacidade de dar respostas consequentes, que possibilitam o surgimento do “inédito viável”, da novidade criativa, que harmoniza e restaura a vida em todos os sentidos possíveis. Por essa razão, a Teologia Moral hoje está empenhada em formar pessoas adultas, maduras, discernentes e responsáveis, capazes de, na liberdade fiel e amorosa, serem portadoras da novidade que traz a Verdade que liberta e pacifica o ser humano e suas relações.
A quarta proposta é a tentativa de propor uma Teologia Moral Cristã da sexualidade para hoje. A ética cristã da sexualidade, para ter plausibilidade hoje, precisa estar atenta a duas dimensões: à dimensão dos valores fundamentais que se quer garantir e à dimensão do modo como esses valores devem ser transmitidos. Aqui valem as palavras do Papa João XXIII, na abertura do Concílio Vaticano II:
Uma é a substância da antiga doutrina do depositum fidei, e outra, a formulação que a reveste: e é disso que se deve – com paciência, se necessário – ter grande conta, medindo tudo nas formas e proporções do magistério prevalentemente pastoral […] Sempre a Igreja se opôs aos erros, muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Nos nossos dias, porém, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina que condenando erros (João XXIII, 1969).
Para garantir essas duas dimensões, pode-se dizer que a ética atual da sexualidade aposta numa moral personalista relacional, não mais de atos, mas de atitudes. Nessa perspectiva, a sexualidade é redescoberta como um valor da vida humana e é concebida como a pessoa, masculina ou feminina, em relação com todos os outros, crescendo em direção ao amor. A sexualidade é vista, então, como uma forma de comunhão íntima, que se volta para a relação/comunhão, a partir da inspiração do amor oblativo. É importante relembrar que uma verdadeira relação interpessoal, impulsionada pelo amor, não pode ser anônima, apenas biológica, tampouco só espiritualizada. O amor que é ofertado ao outro e que depende da dádiva que cada um faz de si, enquanto pessoa sexuada, tem uma concretude indispensável. Cada ser humano se relaciona com os outros enquanto ser corpóreo, que tem uma história, que vive num tempo determinado e num lugar identificável. Portanto, atos isolados têm a sua objetividade e podem ser medidos, na sua bondade ou maldade, mas as pessoas só podem ser compreendidas e ajudadas, misericordiosamente, a partir de suas atitudes, que estão conectadas a um contexto específico que deve sempre ser considerado.
A ética cristã aposta, também, em uma moral que seja paraclética e terapêutica. Uma moral fundada na Sagrada Escritura e apoiada nas palavras do Papa João XXIII deve pretender sempre cuidar, aliviar e, se possível, curar as pessoas de seus pecados, seus problemas, suas aflições, suas culpas e suas dores. Por isso, é necessário apontar para a plausibilidade de uma moral paraclética e terapêutica, que leve em conta a vida concreta das pessoas para, a partir desta, fazer o anúncio da boa notícia que consola e encoraja, que é convite sedutor para uma vida em Cristo e no Espírito. Essa moral dinamiza e indica caminhos possíveis de salvação e de libertação para todos e, de modo especial, para os doentes, os abatidos, os cansados e feridos, sem cair no moralismo legalista, que muitas vezes somente pune, castiga e leva as pessoas ao desânimo improdutivo. Ela prefere uma linguagem indicativa e propositiva àquela imperativa e impositiva; ela quer cuidar e curar as pessoas pelo amor e não pela proibição e pelo medo. Essa moral está a favor das expressões que possam indicar o caráter libertador e responsável da lei do Espírito, de modo que a mensagem moral seja compreendida por todos não como algo imposto de fora ao ser humano, mas como um dom que já está presente no interior de cada pessoa e que precisa apenas ser despertado e acolhido.
Uma moral paraclética é aquela que usa a linguagem da paraclese, que é a linguagem própria do Espírito Paráclito, por isso é consoladora, encorajadora, e vincula o coração, a memória e a consciência das pessoas às obras prometidas e realizadas por Deus em favor de suas criaturas, proporcionando-lhes a força necessária para o combate ao egoísmo pessoal e coletivo, ao desprezo para com a vida, à busca desenfreada do prazer e do sexo sem amor e sem referência à dignidade própria de cada um e de todos os humanos, criados à imagem e semelhança de Deus.
Um grande passo na direção da consolidação de uma moral paraclética e terapêutica é a capacidade de assumir o “cuidado” como vocação, como linguagem e como um modo próprio de “ser-no-mundo” (Boff, 1999, p. 99). Cuidado que supõe gratuidade, oferta de si, pelo simples reconhecimento da carência, do vazio e da incompletude presentes em cada criatura. Resgatar essa vocação do ser humano para o cuidado significa rever o modo como facilitamos às pessoas, individualmente, em conjunto e entre si, o acesso ao necessário para uma vida digna, e também o modo como as capacitamos para a organização de si mesmas no encontro com o sentido essencial que as humaniza e que as encaminha para um relacionamento significativo com os outros e com o Totalmente Outro. No entanto, escolher o caminho do cuidado, quando se quer pensar uma nova ética da sexualidade, é propor algo que ainda precisa ser aprendido, talvez reinventado, num mundo que privilegia a competição e o sucesso individual, num mundo onde funciona a lógica da guerra. Aqui se tem uma tarefa para toda a vida: sustentar o empenho no aprendizado do amor e da ternura e o reconhecimento da dimensão fundante do afetivo, do poder da bondade e da afabilidade, contra toda violência e dureza.
Na visão de alguns, sexo e ternura não combinam, pois a sexualidade, ao invés de ser considerada como um ato de ternura, é concebida por muitos como um ato de conquista. A ternura só pode enunciar-se a partir da fratura, e para que ela se faça presente é necessário que se inverta a ideologia do conquistador, e isso significa assumir a consciência da própria fragilidade e agir a partir desta. O amor não é um ato de soberania, mas, antes, uma constatação da fraqueza compartilhada. Somente a lógica evangélica do  “Curador ferido”, do “Servo de Yahweh”, aquele que venceu sem fazer vencidos, pode assegurar a plausibilidade desse caminho na contemporaneidade conturbada pela busca descontrolada das vantagens individuais e do prazer desmedido.
Jesus, o Curador Ferido, ao morrer como cordeiro não violento, conduz a todos, pela força do testemunho, à experiência do amor não violento e curativo. Ele oferece esse amor gratuitamente a cada pessoa como um dom que, no entanto, está ligado a uma tarefa. A tarefa consiste na conversão a um modo novo de pensar, de desejar e de agir. A moral que se faz paraclética e terapêutica quer ajudar a Igreja de Cristo e todas as pessoas a assumirem essa conversão, para que se compreendam também como curadores feridos. Quem acha que nunca pecou não pode ajudar na salvação dos outros. Jesus, que não tinha pecado, “fez-se pecado” para salvar a todos. A Igreja de Jesus Cristo, ferida pelos próprios pecados e pela solidariedade com o pecado do mundo, ao fazer uma opção real pelo Servo sofredor, luta radicalmente a favor da mensagem libertadora e salvífica do Evangelho, compreendendo que, na melhor das hipóteses, ela é, como todos, curadora ferida diante do médico divino, necessitada de cura e de libertação. Desse modo, ela nunca pode ser violenta, nunca aceitará a violência e, diante da tentação de buscar saídas violentas, se recordará de que o mal e a morte só serão vencidos pelo amor e pelo perdão.
Investir, pois, no cuidado, na ternura, no amor, no encorajamento e na consideração à dignidade de todas as pessoas é apostar em um novo paradigma de convivência para uma outra sociedade possível.
A Moral paraclética e terapêutica quer, pois, contribuir para isso, ao apostar na força de conversão e cura de uma autonomia responsável e intersubjetiva, aquela que possibilita que as pessoas saiam do infantilismo moral, do horizonte da obediência cega e irresponsável, na valorização da consciência como lugar do encontro com a Verdade. Desse modo, a moral será verdadeiramente cristã, a serviço do amor, da comunhão e da humanização das pessoas.
Nessa perspectiva, a sexualidade será sempre percebida e experienciada na sua ambivalência, como motor da vida ou como causa da morte, pelo fato de estar inserida no mistério mesmo da pessoa, frágil e impotente na sua humanidade, embora vocacionada a ser como Deus é. Assim compreendida, possibilitará a cada um viver humildemente sua situação de criatura referenciada a um Deus Bom, que cria, cuida, defende e salva, para que todos possam partilhar amorosamente a vida com dignidade, alegria e prazer, sabendo que tudo que há em cada um e no mundo é dom para ser usufruído e cultivado. O amor e a comunhão, a busca conjunta da verdade, potencializam o ser humano ao caminho da autorrealização, da libertação e da salvação.
A moral paraclética e terapêutica quer, finalmente, assumir, no horizonte da evangelização, ao apresentar os valores fundamentais da sexualidade, a missão de matriciar o Reino de Deus. Somente quando engravidadas pelo Espírito, as pessoas se tornam oferentes e podem fazer nascer no coração e na vida de tantos outros a disposição para o bem e para a verdade, experimentando a comunhão alegre, na busca de sinceros encontros afetivos e ternos que possam ser fecundos e vinculantes.
Homens e mulheres paracléticos são chamados a espalhar sementes generosas, a nutrir a vida dos outros e a proclamar a boa notícia do amor que sustenta, anima e entusiasma o caminho de quantos queiram experimentar na liberdade responsável, fiel e criativa a grande aventura de viver.

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Maria Inês de Castro Millen, é graduada em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora, onde também fez mestrado em Ciências da Religião; graduada em Teologia pelo Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio; e doutora em Teologia pela PUC-RJ. Autora de Os acordes de uma sinfonia – A moral do diálogo na teologia de Bernhard Häring.

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