Teólogos espanhóis lançam uma campanha de apoio ao acesso à comunhão dos divorciados.

Tradução: Pe. Julián Sánchez Hermida.

CARTA AO BISPO DE ROMA*

Irmão Francisco, “Pedro entrevisto”:

Uma criança tira solidéu branco do Papa Francisco, durante um encontro com crianças e voluntários do Instituto Vaticano Santa Marta, no Vaticano , Sábado, 14 de dezembro de 2013. ( AP Photo / Gregorio Borgia )
Uma criança tira solidéu branco do Papa Francisco, durante um encontro com crianças e voluntários do Instituto Vaticano Santa Marta, no Vaticano , Sábado, 14 de dezembro de 2013. ( AP Photo / Gregorio Borgia )

 Estas linhas gostariam de completar, por outro lado, a escrita de quase meio milhão de fiéis, na que lhe pedem com empenho que “você reafirme com firmeza o ensinamento da Igreja de que os católicos divorciados e casados de novo civilmente não podem receber a sagrada comunhão”. Pelo amor de Jesus, nós gostaríamos de pedir-lhe com igual empenho que sejamos todos fiéis ao Espírito do Evangelho, mais além de supostas fidelidades à letra de uns certos ensinamentos da Igreja.

 Falamos de suposta fidelidade não para julgar a intenção dos que lhe escreveram, mas porque, na realidade, o ensino da Igreja não é que os divorciados que voltaram a se casar “não podem receber a sagrada comunhão”, mas que, de acordo com o Concílio de Trento, “a Igreja não erra quando lhes nega a comunhão”. Esta formulação, cuidadosamente escolhida naquele concílio, deixava aberta a possibilidade de que também não haja erro nem infidelidade na posição contrária, e que se trate mais bem de uma questão pastoral do que de uma questão dogmática.

Em nossa opinião, a prudência pastoral não só permite, como hoje mais bem exige uma mudança de postura. Pelas seguintes razões:

 1- Na Palestina do século I, as palavras de Jesus afetavam diretamente o marido que trai e abandona a sua esposa porque gosta mais de outra, ou por razões deste tipo: são principalmente uma defesa da mulher. Aí sim que resulta inapelável a frase do Mestre: “o que Deus uniu, não o separe o homem”.

 11Não se conhecia no tempo de Jesus a situação de um matrimônio que (talvez por culpa dos dois ou por uma incompatibilidade de caracteres, não descoberta antes), fracassasse em seu projeto de casal. Dada a situação da mulher em relação ao marido, na Palestina do século I, esta hipótese era impensável. E aplicar as palavras de Jesus a outra situação desconhecida em seu tempo, onde o que há não é o abandono de uma parte, mas um fracasso dos dois, poderia equivaler a desfigurar essas palavras. Estaríamos assim manipulando Jesus em favor da própria segurança dogmática e colocando a letra que mata à frente do espírito que dá a vida, em contra do conselho paulino. O Evangelho deve ser inculturado e, quando não o inculturamos, o traímos. Os exemplos que seguem podem esclarecer isto um pouco mais.

  1. O evangelista Mateus, que é talvez o que conta mais violações da Lei por Jesus, é curiosamente o único que coloca em sua boca a frase “não pensem que vim abolir a Lei… Vim cumpri-la até o último til”. Dá-nos a entender assim que, naquelas transgressões da letra, Jesus estava cumprindo a Lei até as últimas consequências, porque ele estava custodiando o seu espírito.

E o espírito fundamental de toda a lei evangélica é a misericórdia: não uma misericórdia molenga, por suposto, mas uma misericórdia exigente. Contudo, em maneira alguma, uma exigência não misericordiosa. Talvez, então, tenham algo que dizer-nos aqui aquelas palavras com as que Jesus responde aos escândalos que causa a sua conduta misericordiosa: “aprendam, pois, o que significa: ‘Eu quero misericórdia e não sacrifício’… ” (Mt 9.13 e 12,7).”

  1. A igreja primitiva oferece outro exemplo gritante dessa fidelidade ao espírito sobre a letra, com o abandono da circuncisão. A circuncisão tinha algo de sagrado como símbolo expressivo da união entre Deus e seu povo; poderia ter valido também a seu respeito a citada palavra de Jesus: “o que Deus uniu o homem não o separe”. No entanto, a Igreja abandonou essa prática após fortes discussões e contra a opinião de alguns que acreditavam ser mais fieis a Deus e, na realidade, buscavam mais sua própria segurança. Graças àquela decisão tão discutida, a Igreja não só foi fiel a Deus, como abriu as portas à evangelização do mundo inteiro. E hoje aquela decisão pode-nos parecer óbvia, mas, naquele momento, para muitos resultou escandalosa.

            O mesmo Pedro, em seu discurso em defesa daquela decisão, que hoje nos parece ser tão fiel ao espírito de Jesus, falou para “não impor um jugo que nem nossos pais nem nós somos capazes de suportar” (At.15.10). Este é um dos maiores pecados que a Igreja pode cometer. E é muito discutível que pessoas célibes possam compreender o que significa conviver, todos os dias, íntima e pacificamente com outra pessoa com a qual não se tem mais a menor sintonia. Assim como é discutível que pessoas célibes possam privar-se de manter relações sexuais com uma pessoa com a qual se convive, dia e noite, e à que se ama.  

            4.- Tememos que os defensores do rigor pensem que instalar na Igreja uma “disciplina de misericórdia” seria igual a abrir as portas a um relaxamento da moral, ou que a Igreja aceita os mesmos critérios sobre o divórcio que a nossa sociedade pagã. Na realidade não é assim: não se questiona em absoluto a indissolubilidade do matrimônio; e a disciplina de misericórdia continua sendo uma disciplina à que nem todos podem acolher-se: porque exige arrependimento, reconhecimento de culpa e propósito firme de reparação. Do que se trata é de não deixar sozinhos e sem ajuda aqueles que fracassaram. Como Jesus: que comia com os pecadores, não porque fossem bons, mas para que pudesses sê-lo.

            Teresa de Ávila, cujo centenário estamos comemorando, recorda em sua autobiografia que quando se sentia pecadora ou infiel recorreu algumas vezes a abster-se da oração, porque não se sentia digna dela. Até que ela descobriu que aquele remédio era pior do que o seu mal. A mesma Igreja sempre ensinou (e a prática o confirma) que a participação na Eucaristia pode ser uma grande ajuda e uma força para viver evangelicamente. Tememos que privar dessa força aqueles que fracassaram em seu primeiro projeto de matrimônio e que fizeram penitência por isso, poderia acabar afastando-os da fé.

 5- Finalmente, fica a questão de se a Igreja teria que ter uma dupla vara de medir para as infidelidades ao evangelho que afetam o campo sexual e para as que afetam outros campos da moral.

            Por exemplo: a Igreja ensinou sempre que o único proprietário dos bens da terra é Deus, e que os homens somos apenas administradores daquilo que acreditamos possuir. Essa condição de administrador pede ao homem para pôr todos os bens que tem a mais a serviço de todos aqueles que têm menos: dos pobres e dos carentes de meios.

Precisamente por isso, a Igreja não reconhece um direito absoluto à propriedade privada, mas apenas na medida em que é um meio para satisfazer o direito primário de todos os homens aos bens da terra. Esse ensinamento do destino primário dos bens da terra, tantas vezes recordado pelos últimos papas, não é cumprido por uma maioria de católicos, sem mostrar, além do mais, o menor arrependimento nem vontade de reparação por causa disso.

            Porque esse ensinamento da Igreja é também muito contrário à mentalidade deste mundo pagão. Mas não é uma flagrante injustiça que esses católicos sejam admitidos a receber uns sacramentos que se recusam aos outros casos de casal fracassado, quando nestes haja um arrependimento e vontade de emenda que não se dão naqueles?

 Deus não tem dois pesos e duas medidas, ou melhor ainda: se é parcial com alguém, sempre o é com os pobres e as vítimas. Nas parábolas que conta o evangelho do fariseu e do publicano ou do irmão mais velho do filho pródigo, Jesus colocou-se surpreendentemente de parte dos transgressores: porque aos que os acusavam, todas as suas obras boas não lhes tinham servido para ter um coração bom, mas para ter um coração duro.  

 Nada mais, irmão Pedro. Nós só quisemos expor uma opinião. Mas agradecemos muito pelos seus esforços, em meio a tão cruéis resistências, em dar à Igreja um rosto mais conforme ao Evangelho e ao que Jesus merece.

 Lista completa dos assinantes:
Xavier Alegre Santamaría;
José I. Calleja Saenz de Navarrete;
Joan Carrera i Carrera;
Lucía Ramón Carbonell;
Nicolás Castellanos Franco;
Maria Teresa Dávila;
Antonio Duato;
Ximo García Roca;
José Ignacio González Faus;
Luis González-Carvajal Santabárbara;
Mª. Terea Iribarren Echarri;
Jesús Martínez Gordo;
José Antonio Pagola;
Joaquín Perea;
Bernardo Pérez Andreo;
Josep Mª Rambla Blanch;
Andrés Torres Queiruga;
José Manuel Vidal;
Javier Vitoria Cormenzana;
Josep Vives i Solé.

*Esta carta faz parte da campanha, em espanhol, de apoio ao acesso à comunhão dos divorciado (à que seguirão outras em inglês, francês, alemão e italiano). Assinada por 18 teólogos, um informador religioso, e o bispo emérito de Palencia, Nicolás Castellanos. Entre os teólogos figuram José Ignacio González Faus, Andrés Torres Queiruga, Luis González-Carvajal, Javier Vitoria, Lucía Ramón, Joaquín Perea o Ximo García Roca. Foi lançada para adesões na Internet, na plataforma change.org.

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