Leonidas Proaño: “Ficam as árvores que semeaste’

leonidasproanoLeonidas Proaño, conhecido como “bispo dos índios”, inicialmente como um insulto. Mas foi este nome que identificou sua atividade pastoral, dedicada a defender e ajudar os indígenas equatorianos, particularmente os de Chimborazo. Hoje se completa 27 anos de sua morte.

Antes de morrer, Monsenhor Leonidas Proaño inclinou-se suavemente em sua cama às três da manhã de 31 de agosto de 1988. Em sua mesa de cabeceira tinha dois livros, o Evangelho e Atahualpa, do escritor Benjamin Carrion.

Deus e os indígenas marcaram os 78 anos de vida do maior defensor dos indigenas quichua, ao qual não só evangelizou e alfabetizou durante seu sacerdócio, mas também “os ensinou a pensar por si mesmo, iluminado pelo Evangelho”.

A Igreja, principal responsável pela opressão dos indígenas

“Ficam as árvores que semeaste”. Este é um verso do belo poema escrito por Leonidas Proaño, em 4 de março de 1984. Quatro anos depois, falecia aos 78 anos deixando um testamento oral à sua mais estreita colaboradora Nidia Arrobo, que, contra vento e maré, assumiu a bela e titânica tarefa de manter viva a memória do bispo dos índios do Chimborazo, de todos os índios do Equador, de todos os índios de Abya Yala e, com eles, de todos os condenados da terra, e de ativar sua herança libertadora.

Um testamento dolorido, dramático, amargo, sem concessões ao triunfalismo, que assinala com o dedo a própria Igreja como responsável pela opressão vivida pelos povos originários. Taita Proaño [como Leonidas era carinhosamente chamado] se expressava deste jeito um pouco antes de morrer: “Nidia, tenho uma ideia, sou assaltado por uma ideia, a de que a Igreja é a principal responsável pela situação de opressão dos indígenas… Que dor! Que dor! E eu estou carregando esse peso de séculos. Que dor! Que dor!”.

Ele, que tanto lutou pela dignidade e os direitos dos indígenas e da Pachamama, ele, que repartiu centenas de hectares de terra pertencentes à diocese de Riobamba entre as comunidades indígenas, precisamente ele quis carregar essa dor, com esse peso de séculos como fizera o Servo de Javé dos Cantos de Isaías, de quem Taita Proaño foi a mais viva e autêntica encarnação. Lembram do primeiro Canto? Vamos lê-lo juntos todas as árvores já dispersas por nossos povos:

“Eis meu Servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião. Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião; não desanimará, nem desfalecerá, até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos. (…) Eu, o Senhor, chamei-te realmente, eu te segurei pela mão, eu te formei e designei para ser a aliança com os povos, a luz das nações; para abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas” (Isaías 42, 1-4.6-7).

A inter-identidade como nova forma de afirmar a nossa identidade

A própria figura e o estilo de vida de monsenhor Proaño e dos indígenas com quem compartilhou a sua sorte, o Sumak Kawsay (bem-viver, vida em plenitude, que pouco tem a ver com viver melhor ou dar-se à boa vida) respondem à descrição que o quarto Canto de Isaías fizera do Servo de Javé:

“Quem poderia acreditar nisso que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor? Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos. Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Isaías, 53, 1-4).

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