Quem proclama independência e não abole escravidão/ vai ver não é livre nada/ apenas mudou de patrão (Fernando Brant).

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Independência! É preciso proclamar a nossa, a cada dia: no plano pessoal, sabendo decidir, rompendo as amarras do egoísmo. No plano coletivo, ajudando a construir, na família, na vizinhança, no trabalho e na escola, uma relação igualitária, não dominadora. Emancipadora! Paulo Freire, educador que se fez pessoa independente e sempre sociável, gregária, dizia: “ninguém liberta ninguém; os seres humanos se libertam em comunhão”.

Piracemando

1559502_10152259439739664_674589447_oVocê estranhou o título? Explico: somos irmãos de todos os seres viventes, como reiterou agora o papa Francisco, em sua encíclica ‘Laudato sí – sobre o cuidado da casa comum’. Sabendo-me parente de tudo o que tem patas, asas, raízes e escamas, fascina-me o fenômeno da piracema, quando os peixes sobem contra a correnteza dos rios para  desovar. Cardumes enfrentam, no seu afã reprodutor, cachoeiras e barragens. Muitos não conseguem, nenhum desiste. Minha pretensão é ‘piracemar’ aqui: ir contra a corrente, trazer um ponto de vista diferente. Não por prazer juvenil, mas por convicção.

Daí que começo dizendo que a tal “Agenda Brasil”, patrocinada por Renan Calheiros (presidente do Senado, investigado na Lava Jato) e abençoada por Joaquim Levy (ministro da Fazenda de Dilma, que foi da equipe econômica do Aécio) e pelo PIB nacional é um ‘tratoraço’ de atração de investimentos que passa por cima dos povos indígenas, de áreas de proteção ambiental e do patrimônio histórico, além de agredir direitos trabalhistas. Até o Mercosul é atingido!

A venda de bens públicos, a facilitação do controle sobre licitações, com ampliação do regime diferenciado de contratações, e a desvinculação de receitas, vulnerabilizando o gasto social, também estão previstas. Empreiteiras e empresas de planos de saúde – grandes financiadoras de campanha – são claramente favorecidas.

Ainda que contendo aqui e ali propostas óbvias, como a redução de ‘estruturas administrativas obsoletas’, considerar que está nessa ‘agenda’ de 42 pontos a saída da nossa crise é não querer enxergá-la em sua profundidade. Como é recorrente na nossa história, trata-se de um pacto pelo alto, das elites, com a única preocupação de ‘preservar o ambiente de negócios’. Dilma agarrou a boia, interessada em preservar a continuidade de seu governo. ‘Seu’ governo – que é sobretudo o da ortodoxia do capital financeiro, ao gosto tucano, e o da base política de clientela, especialidade peemedebista.

Enquanto isso, quantos agentes públicos do Brasil – são setenta mil, de vereadores a ministros de estado – percebem a rejeição, pelas praças, dos esquemas corroídos e pouco transparentes que os levam aos palácios? A ‘reforma política’ de mentirinha que está sendo votada no Congresso é uma ofensa à cidadania. O nó górdio do sistema político nacional, que é a sua captura por grandes grupos econômicos, evidenciado em cada escândalo de corrupção, foi até constitucionalizado pela Câmara dos Deputados. Mas disso a “Agenda Brasil” não trata.

chicoalencar - n.s.carmo3Chico Alencar é professor de História (UFRJ), escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

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