Nossa “pastoral líquida” e a “nova paróquia” que queremos

Por Nicolau João Bakker, svd

Via Vida Pastoral

Desde o início do segundo milênio, nossa Igreja sempre se apresentou como uma instituição sólida, hierarquicamente bem estruturada, com limites geográficos bem definidos, com um governo central de poderes amplos e incontestáveis, com doutrinas e normas universais rígidas. A modernidade e a chamada “pós-modernidade” arranharam esse modelo por todos os lados. Procurando pistas para situar-se diante desse contexto, é importante valorizar o legado do Vaticano II.

Introdução

1001000_151109348412140_2118483521_nO título já deixa bem claro quem mais me inspira neste artigo: Zygmunt Bauman, o grande pensador polonês da atualidade. Para esse autor, a nossa assim chamada pós-modernidade se caracteriza, antes de tudo, pela perda de solidez das antigas instituições, tradições e convicções, como fica evidente nos seus “best-sellers”Amor líquido, Modernidade líquida e Vida líquida. Na introdução a um dos seus livros mais recentes, Tempos líquidos (2007), Bauman elenca alguns dos efeitos mais deletérios do processo – agora consolidado – da cultura atual: as antigas organizações sociais, mais estáveis, dissolveram-se e as novas não oferecem a mesma estabilidade, pois elas “decompõem-se mais rápido que o tempo que leva para moldá-las”; da mesma forma, as instituições tradicionais e os padrões comuns de comportamento perderam sua capacidade de pautar as rotinas individuais, pois tudo “se dissolve” no grande “viveiro de incertezas” que marca nossa modernidade avançada.

O mundo à nossa frente, então, está perdido? O autor afirma que não pretende oferecer soluções, mas apenas apontar para os sintomas da doença. Cada um ou cada uma de nós que tire as suas conclusões e calcule com quantos paus vai fazer sua canoa. É o que vamos tentar fazer neste artigo. Vou falar da nossa “pastoral líquida”, mas, em vez de apontar apenas para os sintomas, gostaria de também apontar para possíveis soluções. Bauman, porém, alerta-nos: a “globalidade” é agora a marca principal do nosso mundo, e as soluções locais – as únicas que estão ao alcance das nossas mãos –tornam-se inviáveis à medida que, cada vez mais, se confrontam com impedimentos globais. Com essa perspectiva em mente, olhemos agora para alguns dos problemas pastorais que mais nos desafiam.

  1. Que paróquia queremos?

1511271_305758842947189_6607189778019035472_nA pós-modernidade, ou a modernidade avançada, como preferimos, veio acrescentar apenas mais suco ao liquidificador. A globalização, com sua mídia implacável e sua comunicação instantânea, rapidamente vem criando novo ser humano, o Homo globalis. Ciência, tecnologia, comportamentos, crenças, tudo agora é provisório, moda. O que importa é captar a onda do momento. Desfez-se a força social das coletividades que, ainda recentemente, pautavam o comportamento social. O que pode fazer um sindicato, além de burocratizar-se, quando as empresas já não se interessam pelas “reservas” de mão de obra, mas apenas pelos intelectualmente ou tecnologicamente preparados? De que vale um movimento de moradia, ou qualquer outro, por mais bem assessorado que seja, quando o poder público local está de mãos atadas, inteiramente na dependência de investimentos financeiros cujo controle escapa a qualquer poder político? Só nos resta – pensam muitos – partir para o tudo ou nada. A Igreja – aparentemente paralisada – apenas observa.

2.1. As CEBs voltarão?

Faz poucos meses, fui convidado para um “encontro de CEBs” na própria região onde atuo (Diadema-SP). Nos últimos cinco anos, as CEBs, que já foram prioridade máxima, nunca entraram na pauta da nossa assim chamada “reunião mensal do clero”. Nem ouço falar delas, a não ser quando se aproxima um encontro estadual ou nacional. O convite veio, espontâneo, sem nenhuma interferência clerical. Na tradicional cobertura de cima de uma típica casa popular, expressão-símbolo do operariado latino-americano, encontrei 50 antigas lideranças das CEBs, quase todas ainda envolvidas em atividades pastorais ou, em menor número, políticas. Prepararam uma “mística” envolvente, cheia de saudosa memória do passado e também de sonhos acerca de uma nova Igreja e de um novo país. O clima mais perceptível, no entanto, era o de forte desânimo. Onde estão os padres entusiasmados com as CEBs?

Não pude contribuir muito naquele momento, mas pude oferecer uma esperança. Disse-lhes que os bispos estavam lançando um documento sobre a “nova paróquia”, destinada a ser “comunidade de comunidades”. Havia analisado, em profundidade, essa proposta (Estudos da CNBB 104) e publiquei um artigo a respeito em REB 291/2013. O documento deixa o assunto no ar: as CEBs voltarão? Sem dúvida, não da mesma forma. Não é segredo para ninguém que a Cúria romana fez – e continua fazendo –persistente e lastimável combate a elas. Um livro recente (CEBs e os desafios do mundo contemporâneo,  São Paulo: Paulus, 2012) é muito revelador a respeito. No Documento de Aparecida (2007), a parte mais revisada por Roma foi a parte das CEBs, assinada por 70 bispos a favor e 57 contra (DAp 178-180)! O belo texto original: “Elas (as CEBs) têm sido uma das grandes manifestações do Espírito na Igreja da América Latina e Caribe depois do Vaticano II” foi simplesmente eliminado. Em outros, mudou-se, sem mais nem menos, o conteúdo. Onde estava escrito: “Depois do caminho feito até agora, com sucesso e dificuldades, é o momento de uma profunda renovação desta rica experiência eclesial em nosso continente, para que não percam sua eficácia missionária, mas a aperfeiçoem e cresçam de acordo com as exigências novas dos tempos”, o texto foi revisado para: “Em seu esforço de corresponder aos desafios dos tempos atuais, as comunidades eclesiais de base terão o cuidado de não alterar o tesouro precioso da Tradição e do Magistério da Igreja”. Os bispos, por respeito e obediência a Roma, costumam não externar seus sentimentos a respeito, mas imaginamos que se sentiram profundamente humilhados com tal tratamento. Dificilmente as CEBs voltarão, nem mesmo renovadas, se a Cúria romana mantiver o cerco dessa forma.

2.2. Como “setorizar” a paróquia?

11140127_891356087613612_7958105643850505154_nQuando refletimos sobre a pastoral das CEBs, é preciso levar em conta seu processo histórico. E quando os bispos pedem para “setorizar” a paróquia, transformando-a em “comunidade de comunidades” (DAp 304-313; DGAE 56-64 e 98-105; Documentos da CNBB 100, 8, 244-256), é preciso tomar cuidado para não confundir alhos com bugalhos. De qual “comunidade” estamos falando? As ciências sociais fazem clara distinção entre comunidades (marcadas pela estabilidade e por uma “comum-unidade”) e grupos primários (marcados pela volatilidade e pela parcialidade). A Igreja é constituída não de qualquer comunidade, mas de comunidades “eclesiais”. O que é “eclesial” depende muito da eclesiologia que adotamos, e já vimos que, nos nossos “tempos líquidos”, as concepções variam bem mais do que nos “tempos sólidos”. Sérgio Ricardo Coutinho, assessor do Setor CEBs da Comissão Episcopal Pastoral para o laicato, da CNBB, indica (no livro acima citado) “os cinco C’s das CEBs”: círculos bíblicos (viver da Palavra), catequese (nas diferentes faixas etárias), celebração (centrada na eucaristia), Conselho Pastoral Comunitário (união das diferentes coordenações) e compromisso sociotransformador (assistência social e pastorais sociais). A “eclesialidade” (Evangelii Nuntiandi,58; Puebla 640-650) depende da presença dessas cinco características ao mesmo tempo. Nenhum grupo ou pastoral específica, por si só, é comunidade. Nenhum movimento que priorize determinada espiritualidade ou linha pastoral, por si só, é comunidade. Nem uma capela (rural ou de bairro urbano), por si só, é uma comunidade eclesial de base, quando nela se realiza apenas a sacramentação tradicional feita pelo padre. Renovar a paróquia, em conformidade com os critérios conciliares, requer muito mais do que isso.

A relação polêmica entre CEBs e paróquia não é de hoje. O Plano Pastoral de Conjunto (1965-1972) já insistia numa renovação paroquial mediante a criação de “comunidades de base”. Os planejamentos seguintes aprofundam essa mesma proposta. As Diretrizes de 1975/78 falam, pela primeira vez, em “comunidades eclesiais de base”. O Documento 25 da CNBB (CEBs no Brasil, 1982) se tornou o grande marco de referência, chamando as CEBs de “um novo modo de ser Igreja”, expressão usada ainda na conclusão do Documento 92(Mensagem ao povo de Deus sobre as CEBs, 2010). Assumindo Medellín 15,10, faz das CEBs “o primeiro e fundamental núcleo eclesial […], célula inicial da estrutura eclesial e foco de evangelização e, atualmente, fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” (Introdução).

Em Roma, porém, o clima é outro. Paulo VI, na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975), ainda destaca as CEBs como “esperança para a Igreja universal”, porém já ressalva: somente aquelas que “brotam e desenvolvem-se […] no interior da Igreja”, e não aquelas marcadas por “um espírito de crítica acerba em relação à Igreja” (EN 58)! Duas suspeitas rondam a praça de São Pedro: falta de solidez eclesiológica – Roma insiste ainda na assim chamada “eclesiologia de cima” (= “sólida”) – e, principalmente, possível “ideologização” (uso político) da fé. Em Puebla (1979), os bispos falam bem das CEBs, mas não deixam de dizer que “critica-se a falta de formação adequada aos agentes, deixando algumas lideranças serem ideologizadas pela tendência secularizante” (DP 630). Em Santo Domingo (1992), fortemente controlado pela Cúria romana, as CEBs deixam de ser “células iniciais de estruturação eclesial” e voltam a ser “células vivas da paróquia” (SD 61). Para o “novo” Direito Canônico (1983), de fato, apenas a paróquia é “célula inicial”.

Ultimamente, nos documentos da CNBB e de Aparecida, fala-se das CEBs, no meu entender, de forma parcialmente equivocada. Hoje, a presença dos “movimentos” é mais forte na Igreja, e surgiram as “pequenas” e “novas” comunidades. Em diversos documentos têm-se posto as CEBs em pé de igualdade com essas novas expressões comunitárias (Doc. 100 da CNBB: 132-134, 231-236, 244-256; cf. DP 111 e 644; SD 58; DAp 178-180; DGAE 2011/15: 58; EG 29). O grande perigo dessa postura eclesiástica (demasiadamente “líquida”) é levar as CEBs a uma teologia desencarnada e uma espiritualidade descomprometida. É interessante comparar novamente o texto original e o revisado do DAp 179. Dizia o texto original: “Elas (as CEBs) poderão revitalizar as paróquias desde o seu interior, fazendo das mesmas uma comunidade de comunidades”. O texto revisado diz: “Atuando dessa forma, juntamente com os grupos paroquiais, associações e movimentos eclesiais, podem contribuir para revitalizar as paróquias, fazendo delas uma comunidade de comunidades”. Entendo que a paróquia, sem dúvida, pode crescer em espiritualidade e “vivência comunitária” por meio de movimentos e novas formas de associação comunitária, mas em nenhum desses movimentos ou associações se concretizam, ao mesmo tempo, “os cinco C’s das CEBs”, como acima assinalado. Apenas nas CEBs encontramos, apesar de todas as deficiências, a “eclesialidade plena”, e é por isso que somente elas merecem ser intituladas como “células iniciais de estruturação eclesial”. Quando se pretende “setorizar” a paróquia, essa distinção é fundamental.

Há quem queira dar às CEBs o “monopólio da eclesialidade”. O Doc. 25 da CNBB já alertava a respeito. De fato, nenhuma CEB é Igreja quando isolada das demais. A Igreja é “comunhão” na sua essência. Numa perspectiva mais teológica (e histórica), apenas a diocese é “comunidade de comunidades”. A paróquia deve ser vista mais como estrutura intermediária de “serviço”. Do ponto de vista eclesial, o bispo diocesano é o ponto de encontro primário das comunidades eclesiais, e as paróquias intermedeiam as diferentes pastorais que expressam e dão concretude a essa unidade.

Por isso, “setorizar” a paróquia é, antes de tudo, criar CEBs, o que não elimina – muito pelo contrário! – a possibilidade de nelas haver “vivências” espirituais e comunitárias diversas, mais ao encontro de, por exemplo, gostos pessoais, idades e níveis de formação. Especialmente este último ponto me parece particularmente relevante. Em termos de reflexão pastoral, existe uma lacuna a respeito. O clima e a prática espirituais e pastorais com os quais as pessoas se alimentam variam substancialmente de acordo com os graus de escolarização e engajamento profissional. O mundo secularizado nos dá essa lição. Como envolver, pastoralmente, as pessoas – muitas vezes da classe média/alta – que adquiriram maior liderança intelectual e profissional? O fator “afinidade humana” é vital em qualquer comunidade. Nossas CEBs tradicionais são fortemente “locais”. Como polos dinâmicos de reflexão, vivência e ação – apenas possíveis por meio de “convivência” –, não vemos como possa ser diferente. Mas talvez tenhamos de abrir mais portas para CEBs “regionais”, de estilo mais “urbano”, reunindo pessoas cujas afinidades não se dão em âmbito local. Ainda assim, não vejo como isso possa “funcionar” concretamente sem um polo local de encontro e dinamização dos “cinco C’s das CEBs”. Quem sabe caberá, nesses casos, uma volta à “Igreja doméstica”?

  1. Apostemos no papa Francisco

1383227_298580816998325_2793450122118732223_nGostaria de encerrar esta reflexão fazendo uma aposta na sabedoria pastoral do papa Francisco. O fato de ter vindo “do fim do mundo” pode ser decisivo para uma saudável “volta à grande disciplina” conciliar. Depois do Concílio, e a partir do Concílio, a vetusta teologia sólida do passado se fragmentou. Hoje, são muitas as teologias. Além da teologia europeia, já podemos falar de uma teologia africana, asiática e latino-americana, inclusive com suas vertentes locais. Da mesma forma, o “rosto” da Igreja. Cada “povo de Deus” tem direito à sua fisionomia própria. Voltamos a dizer: tudo que era sólido se tornou líquido, também na ação pastoral da Igreja. Não há nenhum mal nisso, como não há nenhum mal na modernidade em si, ainda que sejam muitos os desafios. Quanto às CEBs, é minha convicção que o “esquecimento” delas não é, em primeiro lugar, fruto da reação conservadora dentro das nossas próprias Igrejas, mas, muito mais, fruto da atitude obstinada do Vaticano que amedronta nossos bispos. É simplesmente inviável setorizar as paróquias e criar ampla rede de comunidades dentro dela sem nova abordagem teológica e pastoral do ministério ordenado (ou sem romper a “jaula de ferro ministerial”, como diria P. Suess). A “nova paróquia” que a CNBB propõe exige dos atuais padres que se transformem em super-homens. Uma ilusão. Super-homens não existem. Muito mais realista – além de mais evangélico – é retomar a tradição original e entregar a “direção” das comunidades, ainda que seja de forma temporária, às mãos de homens e mulheres “de boa reputação e repletos do Espírito e de sabedoria” (At 6,3 e 13,1; 1Cor 12).

O papa Francisco, na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (32), afirma querer governar de acordo com o princípio conciliar da colegialidade e dar maior autonomia às Conferências Episcopais, “incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal”. Apela a uma “conversão pastoral do papado e das estruturas centrais da Igreja universal”. Por meio de pesquisa, fez uma consulta aos diversos continentes acerca de algumas normas eclesiásticas que interferem profundamente nas sensibilidades humanas. Na atual conjuntura eclesial, existe óbvio hiato entre o senso de fé, o “sensus fidelium”, do povo cristão – e do mundo em geral – e a postura sólida, obstinada, da Cúria romana. Depois de diversas fracassadas reformas da Cúria romana após o Vaticano II, o pequeno grupo de cardeais nomeados pelo papa dará conta do recado? O sínodo a ser concluído este ano significará a ruptura de um cerco milenar ou o fim de uma grande esperança? No momento em que escrevo, ainda não há resposta, mas uma coisa é certa: quando menos se esperar, o Espírito Santo soprará com força, e as portas e janelas da Igreja se abrirão para iniciar um novo futuro!

hqdefaultNicolau João Bakker, svd. Missionário do Verbo Divino, sacerdote, cientista social e pastoralista. Atuou sempre em paróquias, rurais e urbanas. Durante diversos anos lecionou Pastoral no Instituto de Teologia de São Paulo (Itesp) e coordenou programas contra a violência urbana e de formação de lideranças numa ONG de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP/CL), São Paulo. Atualmente atua na pastoral paroquial de Diadema-SP.

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