A beatificação: aspirina litúrgica-teológica ou força revolucionária?

A santidade de Romero precisa da poesia de Dalton para evitar a burocratização da teologia da libertação e realizar a ruptura necessária com o passado colonial que transformou os Estados latino-americanos em Estados laicos-de-fachada onde “a subsistência dos privilégios feudais logicamente acompanhava a dos privilégios eclesiásticos” (Mariátegui) expressos na defesa da propriedade privada e elitista da terra, do modelo patriarcal heterossexual de família e na expressão religiosa do capitalismo.
Por Nancy Cardoso Pereira.

Texto Publicado originalmente em CONIC

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Foto: ncronline.org
El Salvador tem uma história triste, de um povo forte e de uma luta sem fim por paz e dignidade… uma história parecida com a de todos os povos latino-americanos. Nos anos 70 nós estávamos mais próximos de El Salvador e sua luta de libertação contra os oligarcas agroexportadores que faziam do país o pátio traseiro dos EUA. Num tempo sem as facilidades de comunicação as notícias de lá chegavam ao Brasil – também em tempos de ditadura! – através da teologia e da poesia.
De Roque Dalton – poeta, jornalista e revolucionário – recebíamos o poema:
El Salvador vai ser um bonito país
e (sem exagero)um  país sério
quando a classe operária e o campesinato
o fertilizem, passem o pente e um pouco de talco
vão arrancar a cola grudada na histórica
e, assim, o tornarão decente
e, reconstituído, o colocarão para andar.
O problema é que hoje El Salvador
tem mil farpas e cem mil desigualdades
milhares de calos e outros tantos abscessos
câncer caspa cascas sujeiras
feridas fraturas tremedeiras e manchas
Vamos ter que dar um jeito com o facão
lixa  torno  aguarrás e penicilina
beijos  banhos de assento e pólvora.

A poesia de Dalton expressa a leitura da realidade marcada de amor e ódio, de dizer o país como um num-sei-que doente e sujo, como uma criança e um monstro. A poesia aponta a tarefa do campesinato e da classe operária de fazer um país decente… sem esquecer das ferramentas de trabalho e crítica mas também não esquecer das belezas plenas de cuidados de fazer um país/povo decente: talco, pente, beijos e banhos… e pólvora.
daltonDalton foi assassinado (em 10 de maio de 1975) por um grupelho sectário da esquerda sem povo, que acusava as pretensões de movimento de massas de Dalton como populismo. Uma página trágica que confirma os milhares de calos e outros tantos abscessos.
Na mesma década de 70, na mesma América Central, El Salvador também nos fazia chegar profecia e pastoral. As comunidades cristãs viviam intensamente a crise e as violências dos governos militares em El Salvador, procurando respostas de defesa dos/as pobres e perseguidos/as. Dom Oscar Romero vai ser fruto e voz dessa vivência da fé em tempos de crise.
Ao referir-se às CEBs, em sua terceira Carta Pastoral, Dom Romero afirma que “devem fomentar-se e fortalecer-se porque são células vitais da Igreja. É o tipo de comunidade organizada que surge ao redor da Palavra de Deus que convoca, conscientiza e exige; e surge ao redor da Eucaristia e de Jesus, celebrando também o esforço humano por abrir-nos ao dom de uma humanidade melhor”.
Romero também vai ser assassinado em 1980 pelas mãos e ordens de militares que defendiam um país cristão, com valores de família e propriedade que também julgavam que esta defesa fazia deles filhos queridos da verdadeira igreja e não aquela, da libertação, dos/as pobres e de Dom Romero.
A leitura da realidade de Romero era exata:
La oligarquía, al ver que existe el peligro de que pierda el completo dominio que tiene sobre el control de la inversión, de la agroexportación y sobre el casi monopolio de la tierra, está defendiendo sus egoístas intereses, no con razones, no con apoyo popular, sino con lo único que tiene: dinero que le permite comprar armas y pagar mercenarios que están masacrando al pueblo y ahogando toda legítima expresión que clama justicia y libertad.
Dalton e Romero não conviveram… mas respiraram os mesmos ares dos anos 70 e dialogaram através da poesia e da teologia, da militância e da profecia, oferecendo aos movimentos sociais e à igreja da base um léxico comum de sentimentos comuns, de práticas que se procuram e desafios teóricos e organizativos que ainda não soubemos responder: ou porque fomos interrompid@s ou porque não sabemos juntar as pontas deste desafio de ser totalmente crítico, totalmente amoroso e totalmente livre. Haja poesia! Haja profecia!
Nem Romero nem Dalton cabem na amarras dos anos 70… eles expressam uma busca antiga e persistente de uma vivência revolucionária de paixão e fé, desde as bases e com elas. Assim como Romero aponta para o núcleo de poder dominador em El Salvador e na América Latina como o setor agroexportador e latifundiário associados ao tráfico de armas, Dalton tem uma visão de futuro quando dispara:
SOBRE MODERNAS CIENCIAS APLICADAS
La ecología es el eco producido por el estruendo con que el capitalismo destruye el mundo. Pues, independientemente de lo que diga la Universidad, la ecología mas que una ciencia ES un discreto velo, un ungüento lubricante y, en el mejor de los casos, una aspirina científico-técnica.
De su validez y eficacia puede decirse que mientras la destrucción capitalista siga produciendo ganancias a los dueños del mundo y sea más importante que la conservación ambiental, la única posibilidad de ser importante que tiene la ecologia es seguir siendo un negócio.
Assim os anos 70 do século passado ainda não acabaram! Estão em aberto esperando de nós e nossos processos de luta libertadora na América Latina que retomemos a radicalidade e a metodologia de Dalton e Romero. Tão diversos e tão necessários na compreensão e na articulação dos movimentos de base.
Estreitar a santidade de Romero no processo de beatificação seria o pior dos mundos para a igreja dos/as pobres e a teologia da libertação! Interpretar a beatificação como reconciliação e retribuição na história paralisa a profecia e entrega o testemunho de Romero e dos milhares de assassinados na luta pela justiça aos contabilistas de uma história triunfal: as modernas teologias aplicadas!
A beatificação de Romero precisa da santidade debochada de Dalton para se cumprir como realização de uma esperança alargada de crítica e auto-crítica. Não há poesia, nem profecia e muito menos revolução sem processos de crítica e auto-crítica permanentes.
Para os movimentos sociais na América Latina a beatificação de Romero é sinal de esperança e atenção. Esperança porque os mortos pelo reino e a vida são mal matados! Estão ressuscitados na prática das comunidades de paixão e fé. Atenção, porque os burocratas de plantão transformam (-se) os/as revolucionários/as em personagens inofensivos e maleáveis, bem matados. Mas Romero e Dalton, não!
Tantas veces me mataron, tantas veces me morí,
sin embargo estoy aquí resucitando.
Gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal,
porque me mató tan mal y seguí cantando.
Cantando al sol, como la cigarra,
después de un año bajo la tierra…
Mercedes Sosa
 A santidade de Romero precisa da poesia de Dalton para evitar a burocratização da teologia da libertação e realizar a ruptura necessária com o passado colonial que transformou os Estados latino-americanos em Estados laicos-de-fachada onde “a subsistência dos privilégios feudais logicamente acompanhava a dos privilégios eclesiásticos” (Mariátegui) expressos na defesa da propriedade privada e elitista da terra, do modelo patriarcal heterossexual de família e na expressão religiosa do capitalismo.
 Dalton precisa de Romero para superar a arrogância militante e a estreiteza metodológica de quem o matou. Os anos 70 foram dolorosos também porque ousaram aproximar mesmo sem querer a profecia de Romero e a poesia da Dalton. Ninguém quer síntese ou resolução técnica… mas a mística, a emoção revolucionária que confunde poesia e profecia. Venceremos!
 A burguesia entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria, da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não reside na sua ciência e sim na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, tal como escrevi num artigo sobre Gandhi, é uma emoção religiosa…
Por Nancy Cardoso,11954592_872597579495939_2074624312969977323_n
pastora metodista, agente de pastoral da CPT no sul da Bahia
Obs.: o título foi adaptado para se adequar ao padrão de identidade visual do site do CONIC.
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