Estar na verdade é salvar a vida

Luciano José de Lima

(Para o Milton Schwantes,
que era fã da comunidade de Jesus
e sabia o que isso significava…)

Êxodo 1.15-22: O rei do Egito ordenou às parteiras hebreias, das quais uma se chamava Sifrá, e outra, Puá, dizendo: Quando servirdes de parteira às hebreias, examinai: se for filho, matai-o; mas, se for filha, que viva. As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como lhes ordenara o rei do Egito; antes, deixaram viver os meninos. Então, o rei do Egito chamou as parteiras e lhes disse: Por que fizestes isso e deixastes viver os meninos? Responderam as parteiras a Faraó: É que as mulheres hebreias não são como as egípcias; são vigorosas e, antes que lhes chegue a parteira, já deram à luz os seus filhos. E Deus fez bem às parteiras; e o povo aumentou e se tornou muito forte. E, porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família. Então, ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem aos hebreus lançareis no Nilo, mas a todas as filhas deixareis viver.

Fui aluno do Milton Schwantes, assisti muitas das suas aulas e ouvi alguns de seus sermões. Mas o último, o que mais me marcou, não o ouvi diretamente. Chegou-me aos ouvidos pela memória do meu amigo Luiz Ramos. Foi como evangelho que se espalha, e vai contagiando, passando adiante, coisas de Jesus, como diria o Milton.

08-02-macapa-ap-215Mulheres parteiras sob o jugo do faraó, senhor de divino status, poderoso para decidir sobre a vida e sobre a morte das pessoas. Delas, em um mundo em que muitas mulheres ficam anônimas, sabemos seus nomes, Sifrá e Puá. Do faraó, o nome se perde na noite dos tempos, afunda como seu dono no mar, incapaz de boiar por conta de seu coração de pedra, comprometido com a lógica do domínio e da morte. Uma era a ordem, não deixar que os meninos sobrevivam. Outra foi a ação, desobediência, resistência dos despossuídos a quem Deus está a ouvir. Diante disso, o senhor faraó chama as parteiras. Ao indagá-las recebe a resposta de que as mulheres são tão vigorosas que se antecipam à sua visita. Milton diria que seus filhos nascem como Macunaíma, correndo pra vida, sem precisarem de ajuda. As parteiras inventaram uma história para justificar a sobrevivência dos meninos. Sim, as parteiras mentiram mesmo.

Muita gente se levanta em nossas comunidades para protestar: “Mentira é pecado! O diabo é o pai da mentira!” Ao que respondo levando em conta o próprio texto trazido à memória, a saber, João 8.44. Na sequência em que Jesus fica ao lado da mulher adúltera, que seria apedrejada em nome das verdades da lei, começa a defender sua missão como aquele que é a luz do mudo, que vem trazer clareza. Sua missão de luz aparece associada à defesa da mulher que queriam apedrejar. Em meio a uma querela sobre o pecado, uns dizem: “Sou filho de Abraão!” Isto é, “sou herdeiro da verdade, somos os verdadeiros filhos de Deus!” Mas filho de Deus mata em nome de Deus? Ao que Jesus os chama de filhos do diabo, pois estão a favor da morte.

Em João, a verdade é aleteia, desvelamento, despertar, acordar para a vida no caminho do amor. A mentira é pseudos e se trata de toda ação que gera ou legitima o assassinato, a morte. Há uma relação entre verdade e vida salva, assim como uma relação entre mentira e assassinato. Estar na verdade (aletéia) é proteger e promover a vida, enquanto estar na mentira (pseudos) é estar na morte, promovendo-a, mesmo que se arrogue filho de Abraão ou de Deus. Quem, em nome da verdade, gera a morte, não está na verdade, sua vida é uma mentira.

Voltemos às parteiras. Mentiram ao faraó para promover a vida, elas sim, estão na verdade. Arriscaram o pescoço para dar à luz a existência dos meninos condenados pela tirania do faraó. Que o Deus da vida, desperte a parteira que existe dentro de cada uma e de cada um de nós.

Deus conosco

11150489_805656926208114_7870291174972826928_nLuciano José de Lima, hoje encantado no coração dos que o conheceram, ele foi Pastor Metodista e na FATEO – Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo -, professor auxiliar nas disciplinas Sociologia da Religião, Antropologia e Religião, Filosofia e Hermenêutica Filosófica; deu aula para o CTP – Curso Teológico Pastoral – destinado à formação de pastores e pastoras metodistas.

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