Trechos do Discurso do Papa Francisco no Congresso Norte Americano

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Francisco inicia seu discurso dizendo ser a América como a “terra dos livres e casa dos valorosos”. Apresentou-se como um “filho deste continente”.

“A atividade legislativa baseia-se sempre no cuidado das pessoas. Para isso fostes convidados, chamados e convocados por aqueles que vos elegeram. O vosso trabalho lembra-me, sob dois aspectos, a figura de Moisés. O vosso trabalho lembra-me, sob dois aspectos, a figura de Moisés.” (A referência a Moisés é interessante, pois é uma figura reconhecida também por judeus e muçulmanos).

“Quero dialogar com todos vós, e desejo fazê-lo através da memória histórica do vosso povo.
(…) Um povo com este espírito pode atravessar muitas crises, tensões e conflitos, já que sempre conseguirá encontrar a força para ir avante e fazê-lo com dignidade. Estes homens e mulheres dão-nos uma possibilidade de ver e interpretar a realidade. Ao honrar a sua memória, somos estimulados, mesmo no meio de conflitos, na vida concreta de cada dia, a haurir das nossas mais profundas reservas culturais.

Quero mencionar quatro destes americanos: Abraham Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day e Thomas Merton. (…)

O nosso mundo torna-se cada vez mais um lugar de conflitos violentos, ódios e atrocidade brutais, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião. Sabemos que nenhuma religião está imune de formas de engano individual ou de extremismo ideológico.(…)

Combate ao fundamentalismo, religioso ou outro, não deve levar à violação de liberdade religiosa, liberdades intelectuais e individuais.” (Forte aplauso)

Francisco liga Lincoln ao combate a novas formas de escravatura e sublinha a importância da contribuição das vozes religiosas para este debate.

1443104141338222“Nesta terra, as várias denominações religiosas deram uma grande ajuda na construção e fortalecimento da sociedade. É importante que hoje, como no passado, a voz da fé continue a ser ouvida, porque é uma voz de fraternidade e de amor que procura fazer surgir o melhor em cada pessoa e em cada sociedade. Esta cooperação é um poderoso recurso na luta por eliminar as novas formas globais de escravidão, nascidas de graves injustiças que só podem ser superadas com novas políticas e novas formas de consenso social.

Se a política deve estar verdadeiramente ao serviço da pessoa humana, segue-se que não pode estar submetida à economia e às finanças. É que a política é expressão da nossa insuprível necessidade de vivermos juntos em unidade, para podermos construir unidos o bem comum maior: uma comunidade que sacrifique os interesses particulares para poder partilhar, na justiça e na paz, os seus benefícios, os seus interesses, a sua vida social. Não subestimo as dificuldades que isto implica, mas encorajo-vos neste esforço.”

Francisco evoca agora Martin Luther King e a sua luta pelo fim da discriminação. Ouve-se uma forte ovação

1443104669391815“O nosso mundo está a enfrentar uma crise de refugiados de tais proporções que não se via desde os tempos da II Guerra Mundial (…) Também neste continente, milhares de pessoas sentem-se impelidas a viajar para o Norte à procura de melhores oportunidades. Porventura não é o que queríamos para os nossos filhos? Não devemos deixar-nos assustar pelo seu número, mas antes olhá-los como pessoas”

” Aquele sonho continua a inspirar-nos. Alegro-me por a América continuar a ser, para muitos, uma terra de ‘sonhos’.”

1443105342195016O Papa lembrou de Dorothy Day logo depois de ter feito referência ao aborto. Antes de se tornar religiosa, Day fez um aborto.

Recentemente o Papa anunciou que durante o Jubileu da Misericórdia os padres poderão perdoar o pecado do aborto, incentivando assim as mulheres e homens envolvidos com esta questão a procurar a misericórdia de Deus, à imagem de Dorothy Day.

Francisco evoca agora Thomas Merton, um monge cisterciense e um místico, que recuperou no Ocidente a tradição da meditação cristã:

1443105829711423“Merton era, acima de tudo, homem de oração, um pensador que desafiou as certezas do seu tempo e abriu novos horizontes para as almas e para a Igreja. Foi também homem de diálogo, um promotor de paz entre povos e religiões.(…) Nesta perspectiva de diálogo, gostaria de saudar os esforços que se fizeram nos últimos meses para procurar superar as diferenças históricas ligadas a episódios dolorosos do passado. É meu dever construir pontes e ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e cada mulher a fazerem o mesmo. Quando nações que estiveram em desavença retomam o caminho do diálogo – um diálogo que poderá ter sido interrompido pelas mais válidas razões –, abrem-se novas oportunidades para todos”

Fortíssima crítica ao comércio de armas, uma indústria importante para os EUA.

Por que motivo se vendem armas letais àqueles que têm em mente infligir sofrimentos inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente a resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por dinheiro; dinheiro que está impregnado de sangue, e muitas vezes sangue inocente. Perante este silêncio vergonhoso e culpável, é nosso dever enfrentar o problema e deter o comércio de armas.” (Forte ovação)

Ainda sobre a “regra de ouro”, Francisco aproveita para interceder contra a pena de morte e a favor da proteção da vida, da concepção à morte natural: “A regra de ouro põe-nos diante também da nossa responsabilidade de proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento. [Longa ovação de pé]

“Esta convicção levou-me, desde o início do meu ministério, a sustentar a vários níveis a abolição global da pena de morte.”

“Agora é o momento de empreender ações corajosas e estratégias tendentes a implementar uma «cultura do cuidado» (ibid., 231) e «uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (ibid., 139). Temos a liberdade necessária para limitar e orientar a tecnologia (cf. ibid., 112), para individuar modos inteligentes de «orientar, cultivar e limitar o nosso poder» (ibid., 78) e colocar a tecnologia «ao serviço doutro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral»”

[Citações do Laudato Si]

“Três filhos e uma filha desta terra, quatro indivíduos e quatro sonhos: Lincoln, a liberdade; Martin Luther King, a liberdade na pluralidade e não-exclusão; Dorothy Day, a justiça social e os direitos individuais e coletivos; e Thomas Merton, capacidade de diálogo e abertura a Deus.(…)

CPrToFzXAAAkwcMUma nação pode ser considerada grande, quando defende a liberdade, como fez Lincoln; quando promove uma cultura que permita às pessoas «sonhar» com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos oprimidos, como fez Dorothy Day com o seu trabalho incansável, fruto duma fé que se torna diálogo e semeia paz no estilo contemplativo de Thomas Merton.”

Francisco termina o seu discurso com elogios ao povo americano e um sonoro “God bless America”

O Congresso aplaude-o de pé.

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2 comentários sobre “Trechos do Discurso do Papa Francisco no Congresso Norte Americano

  1. Sirley 24 de setembro de 2015 / 19:27

    muito bom o discurso do Papa Francisco no Congresso Americano.

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  2. Gilberto de Almeida 12 de novembro de 2015 / 14:15

    No encerramento das comemorações do centenário de Thomas Merton, o Mosteiro de São Bento (SP) e a Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton promovem no dia 16 de novembro (segunda-feira), o “Fórum Ano da Misericórdia: Papa Francisco e Thomas Merton”. O evento gratuito prevê uma palestra sobre o tema com respeitado ensaísta e professor de Teologia Francisco Augusto Catão, seguido de um debate conduzido pelo padre Danilo Aparecido Mondoni (Sociedade Jesuíta).

    Outra atração programada é uma apresentação do Coro Luther King, cantando apenas músicas de estilo spiritual, em homenagem ao Papa Francisco e a Thomas Merton, ambos admiradores do trabalho realizado junto às minorias carentes do Harlem, bairro de Nova York formado por pessoas de origem negra ou latina.

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