Livro: Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns – Pastor das periferias, dos pobres e da justiça

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No dia 4 de outubro de 2015, último domingo na Zona Leste de São Paulo, especificamente na Paróquia São Francisco de Assis do Ermelino Matarazzo, houve o lançamento do Livro Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns: Pastor das periferias, dos pobres e da justiça. O livro foi organizado pelos companheiros Waldir Augusti e Padre Ticão.

Abaixo, segue um trecho autorizado por um dos autores, Edilson da Silva, de uma das dezenas de reflexões que permeiam o livro que é um patrimônio da história político-eclesial de Dom Paulo.

Para mais informações:
Paróquia São Francisco de Assis, Ermelino Matarazzo.
Telefone: (11) 2546-4254

Caminhamos na estrada de Jesus, com Dom Paulo Evaristo Arns

Edilson da Silva Cruz

 “Sejam alegres, na esperança” (Rm 12, 12)

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Dom Paulo Evaristo Arns, no lançamento do livro em sua homenagem, na Paróquia São Francisco de Assis em Ermelino Matarazzo.

            Nasci em 1988. Não vivi a ditadura militar. Tampouco me lembro diretamente o pastoreio de Dom Paulo à frente da Arquidiocese de São Paulo. Não o conheci pessoalmente. Meu depoimento, porém, é palavra de quem, dentre tantos, descobriu, ainda jovem, a paixão pelo evangelho do Nazareno e, em Dom Paulo, um entusiasmado discípulo.

            Em 5 de dezembro de 1974, chegava à região de São Miguel Paulista meu pai, Euclides, aos 21 anos, vindo da Bahia, migrante em busca de tempos melhores. Uma semana depois, a 12 de dezembro, festa de Nossa Senhora de Guadalupe, o papa Paulo VI nomeava Dom Angélico Sândalo Bernardino como bispo auxiliar de São Paulo. Era o presente de Dom Paulo à nossa querida zona leste. À esperança de Paulo se junta a alegria de Bernardino, e a igreja da periferia ganha a cara do Vaticano II: gaudium et spes, alegria e esperança, juntas, a consolar as tristezas e as angústias do povo trabalhador.

            Começava ali minha relação, simbólica, com Dom Paulo. Filho de migrantes, como tantos que ele ajudou em seus centros comunitários nas periferias, nasci e cresci em meio a uma região marcada pela presença profética da Igreja. Na comunidade onde fui batizado, lê-se, em fotos amareladas, a inscrição na parede: Deus é Amor, a recordar o lema de Dom Angélico e o sentido de ser da vocação de Dom Paulo: a ternura aconchegante de Deus a abraçar os pequeninos (Mt 9, 14).

            “São Paulo é a terra da esperança. Famílias inteiras cheias de simplicidade vêm instalar-se na periferia procurando dias melhores.”(1) Assim dizia um informativo da Arquidiocese na década de 1970. Vinte anos depois, já nos anos 1990, a realidade da zona leste permanecia impregnada de um sentimento difuso de diáspora. Modernidade e tradição, permanência e inovação, desenhavam a face do bairro onde vivi minha primeira infância, cresci e descobri a fé. Fé na vida, sobretudo, e na luta dos pobres. Sou fruto de uma comunidade eclesial de base que virou paróquia, no Jardim Helena, em 1993. Me recordo a figura do Padre Jorge, um escocês que não temia sujar os pés com a lama daqueles rincões, e ensinava a solidariedade e a partilha. Seu ímpeto missionário levou a igreja ao coração do Jardim Pantanal, região até hoje famosa nos noticiários em decorrência das enchentes e da criminalidade que ceifa a vida de seus moradores. Com ele aprendi que a Deus não agrada a injustiça e a desigualdade. Aprendi a ter uma fé genuinamente paulina, daquela que afirma ser um escândalo sentar-se à mesa eucarística enquanto o irmão padece de fome (1 Cor 11). Mas também porque, naquela pequena comunidade, experimentava uma igreja que era a cara de Dom Paulo: profética e missionária.

            Dom Angélico, padre Jorge… Figuras que deixaram o testemunho de uma igreja comprometida com os “mais pobres, mais humildes e perdidos” (2). Uma igreja dos pobres, motivados a se organizar pelo próprio Dom Paulo Evaristo que, na década de 1970 comprou, com o dinheiro de um prêmio recebido, mais de 1200 centros comunitários nos subúrbios da cidade. Lá o povo podia se reunir, falar da situação difícil, desabafar sobre as dificuldades, mas também partilhar as esperanças e alegrias, em sincera comensalidade. O milagre da multiplicação das lideranças, das comunidades, da vida que se concretiza em direitos e mais vida!

            Dom Paulo desenhou uma “cultura do encontro e da ternura” (Papa Francisco), prenunciando a força da primavera eclesial do Vaticano II, a qual não sucumbira aos ventos contrários, mas, ainda que adormecida em longo inverno, ressurgiria em franciscana festa.

Igreja de Dom Paulo, Igreja de Francisco: Igreja do Vaticano II

            Adolescente, me encantou descobrir, numa aula de história, que o então arcebispo de São Paulo, nos anos 1970, passava a noite em frente ao Dops, buscando informações sobre os presos políticos, religiosos ou não. “Mas ninguém o prendia?”, perguntei certa vez ao professor. “E quem teria coragem de prender o Arcebispo?” Entendi, ali, que aquela autoridade, antes de repousar na indefectibilidade dos protocolos políticos, era, no fundo, uma autoridade moral, que, posta a serviço dos encarcerados, deita raízes no mistério de Jesus de Nazaré: crucificado, morto e ressuscitado, quem nos ensinou ser o poder uma serviço prestado à humanidade, em favor do Reino (Lc 22, 26).

            Em seu ministério, Dom Paulo moldou a Igreja do Brasil na olaria do Vaticano II: uma igreja Povo de Deus, aberta à participação dos leigos, atenta às “alegrias, esperanças, angústias e tristezas”(3) de todos os homens e mulheres, servidora da humanidade, em seus esforços na busca da paz. Além disso, ele denunciou as atrocidades da ditadura militar brasileira; protegeu presos políticos e repudiou torturas e assassinatos; editou o mais importante documento sobre aquele período, o livro “Brasil Nunca Mais”; organizou o povo da periferia em comunidades de base, responsáveis por reivindicar melhores condições de vida; abriu as portas da igreja aos movimentos sociais e organizações populares; criou, em 1992, a Pastoral da Aids, com o intuito de servir, qual hospital de campanha, a sanar feridas de pessoas cuja dignidade social foi solapada por uma cruel enfermidade.

            A Igreja de Dom Paulo, sendo moldada pelo Vaticano II, é a Igreja do Papa Francisco: “pobre e para os pobres”, semeadora da “cultura do encontro”; centrada no essencial da mensagem de Jesus; um “hospital de campanha”, pronta a curar feridas e ministrar a salvação; descentralizada, colegial, aberta a discutir as diferenças como riquezas; casa de Deus jovem e alegre, que sai de si mesma, e se lança nas estradas do mundo, sem temer acidentar-se; que vai às periferias existenciais de nosso tempo, anuncia a Boa Nova (4). Esta é a igreja que nos propõe o Papa Francisco, assentada na igreja que Dom Paulo edificou na Arquidiocese de São Paulo, enquanto a administrou.

(…)

12074692_878005498934446_8985010430255131739_nEdilson da Silva Cruz

Para ler mais esse artigo e outros adquira o livro

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