Maria. De Nazaré.

mariaPouquíssima informação histórica existe sobre Jesus de Nazaré. Quanto mais sobre sua mãe, Maria, conhecida como “esposa de José” (sim, porque a mulher sempre era descrita em função do marido).

No entanto, presume-se que sobre ela as primeiras comunidades tinham uma visão muito positiva, pois um dos evangelhos (Lucas) colocou em seus lábios um dos mais lindos cânticos bíblicos, que proclama que Deus fica ao lado dos pobres, despede os ricos de mãos vazias e sacia de bens os famintos. O Deus de Maria tem lado: o lado dos pobres. (Lc 1).

Além disso, sabe-se que, tendo tido ou não outros filhos, a Maria de Nazaré era responsável pela criação de uma penca de filhos, ou sobrinhos, que seja. Um deles era Jesus, que um dia apareceu pregando um reino onde Deus libertaria o pobre e os cativos,os cegos enxergariam, e todos teriam vida em abundância.
Sabe-se também que Tiago, dito “irmão do Senhor”, também foi criado por ela. Foi ele quem liderou a comunidade de Jerusalém, após a morte de Jesus, e era conhecido pelos seus conterrâneos da época por seu profundo zelo para com os pobres. Tanto é que na Carta de Tiago, da Bíblia, escrita por ele ou algum discípulo (possivelmente ele foi analfabeto, como o próprio Jesus), há profundas críticas aos ricos, que se esbaldam no luxo enquanto os pobres morrem de fome.

Não sei, mas me parece que Maria de Nazaré era tão revolucionária quanto seus filhos. Sim, porque se as ideias deles, de empoderamento dos pobres, são fruto daquele século I tão convulso na Palestina, cheio de discursos apocalípticos e messiânicos, consta que ela os acompanhou e serviu, como faziam várias mulheres, até o fim. Ela teve papel importante, sem dúvida, na criação deles, na constituição de suas personalidades e, por fim, na vida da primitiva comunidade de Jerusalém.

Em linguagem teológica, os evangelhos nos deixaram esse testemunho: Maria foi escolhida por Deus e durante toda sua vida fez a vontade dele. Porque o Deus de Maria é o Deus dos pobres, logo, a escolheu, uma pobre camponesa analfabeta. E por ela e seus filhos, iniciou um movimento religioso que sacudiu o Império Romano e o mundo. Até hoje. Como canta o padre Zezinho, “o mundo ainda tem medo de Jesus, que tinha tanto amor…”

Mais que isso. Dizer que Maria era a virgem silenciosa que se calava diante de tudo não deixa de ser uma leitura machista do evangelho e da bíblia. Pelo relato do casamento em Caná, do evangelho de João, percebe-se que Maria era, antes de tudo, uma mulher conectada com as necessidades dos outros, e pronta a socorrer quem estivesse em apuros. Em suma, uma mulher do povo, que aprendeu, convivendo com sua comunidade, seus vizinhos, que o convívio comunitário, fraterno, descentrado de si mesmo, é um dos caminhos pelos quais Deus se encarna no meio de nós.

Maria é, antes de tudo, uma mulher camponesa muito mais livre que as mulheres aristocratas que viviam na Palestina do século I. Sua condição pobre sem dúvida, embora a colocasse em condições de vida hoje consideradas sub-humanas, também a dotou de uma liberdade capaz de sair de si e acompanhar um movimento messiânico, liderado por seus filhos, por toda a vida. Era uma mulher do mundo, do seu tempo, da sua época, conectada com ele, antes de ser uma virgem asceta, e que sem dúvida devia gostar de dançar, beber vinho e festejar a vida!

É esta Maria, por mais que não seja usual descrevê-la assim, que povoa as devoções do catolicismo popular. É ela que intercede, abençoa, bendiz, anuncia, silencia e socorre como uma mãe aos seus filhos em apuros. Desde muito tempo, é vista pelos pobres como porta do Céu, aquela que ajuda os pecadores a, na última hora, livrar-se do castigo. A Compadecida. Rosto feminino de Deus.

Esta Maria é a que, na imagem enegrecida pelo barro achada no rio Paraíba em 1717, se fez presente na história de nossa fé popular. Negra, num país escravocrata, ali também, a “Aparecida” se fez livre, a servir os últimos dos últimos, que preparavam uma festa e não tinham o que oferecer, pois a pesca não rendia. Como em Caná, Maria aparece, toma a frente da situação e providencia o necessário para os festejos. Assim o povo interpreta a aparição da imagem. E, num inspiradora intuição, confirma nossa suspeita de que a mãe de Jesus, além de socorrer os aflitos, é muito afeita a uma festa, pois não deixa que falte o necessário para viabilizar uma.

Esta Maria é a Maria das minhas devoções, da minha admiração, da minha fé. A Mãe de Jesus, rosto feminino de Deus, Maria de Nazaré, da Palestina do século I.

10572009_257595224430218_758180270923913802_oSe diz que, em linguagem teológica, a Aparecida é uma face da Maria que se faz pobre no meio do povo. Na verdade, é a própria Maria de Nazaré, pobre no meio do povo, como ela sempre foi. A indicar que no meio dos pobres, inspirando um mundo novo, sem pobreza, sem miséria, está Deus, que é aquela Mãe generosa e acolhedora.

Em tempos de sombrias dúvidas, vale a pena olhar de novo para a mãe de Jesus, a Maria, de Nazaré da Galileia, e lembrar que o destino de todas as lutas é a alegria de uma festa de casamento, na qual o vinho melhor foi reservado para o final.

Olhai por nós, Mãe.
12074692_878005498934446_8985010430255131739_nEdilson da Silva Cruz, membro da Igreja Povo de Deus em Movimento, é educador e militante pela diversidade católica.

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