A Fraternidade universal – Contra todas as Formas de Violência.

Ato 10

Nesta última sexta-feira diversas entidades sociais, pastorais, movimentos sociais e coletivos ecumênicos saíram as ruas de São Paulo pela Fraternidade Universal num grito contra todas as formas de violência. Agremiações historicamente ligadas à religiões, tomaram o dia do espírito de Assis[1] num grito por um estado laico, a partir de pautas dos direitos humanos ameaçados neste momento histórico.

Lutar contra todas as formas de violência parece um tanto quanto difuso tendo um olhar aguçado para a amplitude da violência no mundo. Preferível, sempre é se debater cada violência ampliadamente e produzir saberes sobre suas superações, no entanto, carece-nos ações de unidade de agendas para uma imersão sobre o que é a violência no mundo.

Ato 4Vivemos uma época em que há um maior controle social e cultural da violência do que em qualquer outro período da história. Essa razão devemos ao pensamento de René Girard, falecido no começo do mês, que mostrou ao mundo que as mediações de violência feitas pelo estado, pelas religiões e pelo sistema em geral, são orientadoras para um sujeito causador da violência e não a razão entre sujeitos. É preciso entender que a violência sofrida por uma transexual na periferia está ligada a violência sofrida por jovens encarcerados/as.

O viver como apenas uma questão econômica, expôs milhares de sujeitos à margem pela tática do extermínio de populações. Assim, são milhares de pessoas no mundo todo tendo uma (sobre)vida, que é engolida pelos tratados internacionais nunca cumpridos plenamente, nem mesmo as consolidações democráticas por meio de políticas públicas inocentemente feitas para a manutenção do status quo. A manutenção da desigualdade se dá nessa complexa engrenagem que combina ocultamento das opressões, com a/o pobre, como “risco”, como “não cidadão”, como “exterminável”[2]. A partir desse lamentável fato, tem-se a justificativa ideal para alimentar a indústria da segurança, com mais encarceramento, mais incursões militares nas periferias, mais perseguição midiática acerca das/os “marginais”, etc.

Ato 9Essa violência é à qual temos de nos levantar. Três pontos se erguem como centrais na superação da violência sistêmica: a criminalização de jovens, mulheres e homens pobres, da classe trabalhadora e popular, das comunidades tradicionais, do campo e da cidade; as pautas conservadoras que alienam, (de)formam, criam mentalidades e influenciam as práticas higienizadoras da própria população por meio do estado e; o genocídio da juventude pobre, preta e periférica, promovido, essencialmente, pela política de segurança, pela precarização do trabalho, pelo encarceramento e pelo racismo.

A luta pela fraternidade universal se torna imprescindível a partir da convocação dos/as diversos/as lutadores/as no campo social que se insurge contra esta violência generalizada. Ir as ruas contra todas as formas de violência é um mote para a unidade dos movimentos sociais evidenciada pelo Papa Francisco na ocasião do encontro mundial dos movimentos populares, na Bolívia. E, amparados no espírito de Assis, a fraternidade universal se faz, pela via da esperança[3]. A unidade poderá operar para uma massificação de pautas num grito anticapitalista, que é embrião de uma violência (não todas) que criminaliza e mata milhões hoje no mundo.

12188998_1070268046337864_863359963316539488_nO Papa Francisco, na encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum fala de relações e estruturas sociais que conservam a vida. Os movimentos sociais e articulações de religiosos/as como a surgida neste ato são possuidores da missão de dar uma virada paradigmática na relação mulher e homem com a terra. E como aponta Francisco, notar-se que a violência é pelo empobrecimento do pobre (mulher e homem) e da terra (a vida feita negócios).

Portanto, para derrubar o muro de cimento onde as pessoas estão construindo suas vidas proliferando e reafirmando a violência do sistema, será preciso se unir aos resistentes que (sobre)vivem nas ocupações, nas favelas, no campo e nos refúgios urbanos do centro das metrópoles. É preciso aprimorar nossas metodologias de ação nas ruas, nos debates, nas inserções comunitárias, na ampliação da comunicação e, sobretudo, a busca por unidade de programas dos movimentos e das religiões que lutam por justiça e paz.

fespsp-tarsoEduardo Brasileiro, 24 anos, membro da Pastoral da Juventude e da Igreja Povo de Deus em Movimento.

[1] Ver site Sefras: http://www.sefras.org.br/portal/pela-fraternidade-universal-contra-todas-as-formas-de-violencia.html

[2] São essenciais as palavras do Papa Francisco: “Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. Esta economia mata. (…) O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que pode usar e depois lançar fora. (…) Já não se trata simplesmente do fenômeno de exploração e opressão, mas de uma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’”. (Evangelii Gaudium, 53)

[3] Os conselhos de Dom Pedro Casaldáliga na Romaria dos Mártires da Caminhada de 2011: “(…) há muita amargura, há muita decepção, há muito cansaço… Isso é heresia! Isso é pecado! Nós somos o povo da esperança, o povo da Páscoa. O outro mundo possível somos nós! A outra Igreja possível somos nós! Devemos fazer questão de vivermos todos cutucando, agitando, comprometendo. Como se cada um de nós fosse uma célula-mãe espalhando vida, provocando vida. (…)Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança. Vamos repetir: Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança!”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s