O pacto das Catacumbas: A Igreja servidora e pobre

Papa João XXIII e Dom Helder Camara

Em 16/11/1965, na Catacumba de Santa Flavia Domitila, em Roma, foi assinado o pacto das Catacumbas por 42 bispos católicos, o grupo da “Igreja dos Pobres”, que se organizou já na primeira sessão do Concílio, com alguns bispos da Europa, da África e da América Latina, em que se comprometia em levar vida de pobreza e de compromisso com as lutas dos pobres e solidariedade em suas necessidades e penas. Posteriormente inspirou espiritualmente a Conferência do Episcopado latino Americano e Caribenho em Medellin, deitando raízes na teologia da libertação.  (Fonte José Oscar Beozzo)

O PACTO DA IGREJA SERVIDORA E POBRE

1001000_151109348412140_2118483521_n“Nós, bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos irmãos do episcopado; contando, sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. (Mt 5,3; 6,33-34; 8,20).

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (tecidos ricos, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). (Mt 6,9; Mt 10,9-10; At 3,6). Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo em nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. (Mt 6,19-21; Lc 12,33-34).

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. (Mt 10,8;At 6,1-7).

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre (Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15).

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). (Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19).

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. (Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4).
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e operários compartilhando a vida operária e o trabalho (Lc 4,18-19; Mc 6,4; Mt 11,4-5; At 20,33-35; 1Cor 4,12; 9,1-27).

9) Cônscios de exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes (Mt 25,31-46; Lc 13,12-14.33-34).

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo e em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus (At 2,44-45; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tm 5,16).

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral — dois terços da humanidade —, comprometemo-nos: a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres; a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como e fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim: esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles; suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo; procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…; mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. (Mc 8,34-35; At 6,1-7; 1Tm 3,8-10).

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces. Ajude-nos Deus a sermos fiéis”

image_previewFrei Boaventura KLOPPENBURG. Livro: Concílio Vaticano II; vol. 5: Quarta sessão (1965), Petrópolis: Vozes, 1966, pp. 526-528.

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