Camilo Torres: 50 anos

CAMILO
Camilo Torres,  padre, mártir das lutas de libertação do povo na Colombia. 50 anos.

Um ato de grande valor simbólico aconteceu em Cali no dia 07 de novembro passado por iniciativa de dom Darío de Jesús Monsalve Mejía, arcebispo dessa cidade, a terceira maior da Colômbia: a recordação de Camilo Torres Restrepo como cristão e como padre. Para preparar o evento, o arcebispo escreveu em um artigo em uma revista da Arquidiocese intitulado: Camilo, ontem e hoje, sinal de reconciliação (Cuadernos ciudadanos – Observatorio de realidades sociales, n. 5, novembro de 2015, p. 8): “O padre Camilo Torres Restrepo, submetido até em seus despojos mortais ao segredo de Estado, na influência de seu pensamento cristão, ao silêncio da Igreja e ao estigma guerrilheiro sobre seu nome, tem muito a dar e ensinar a uma Colômbia que se projeta para a reconciliação, a verdade, a justiça transicional e a paz”.

Neste dia, tratava-se de celebrar a memória de um padre que no dia 15 de fevereiro de 1986 morreu na guerrilha, compromisso que, segundo suas próprias palavras, assumiu como cristão, como padre e como sociólogo, em uma sociedade profundamente injusta e cruel. Somente nos últimos 50 anos, houve quase meio milhão de mortos, seis milhões de deslocados, quatro milhões deles na Venezuela; milhares de desaparecidos, grilagem de terras por fazendeiros e empresas multinacionais (especialmente do petróleo, de minas e de agrocombustíveis), muitas vezes com a ajuda de paramilitares. Acordos de paz estão sendo negociados em Havana e em Quito, para colocar um fim ao conflito armado que se revelou custoso para as classes dominantes e que para os mais pobres e explorados, constitui um processo de luta que se esgotou física e moralmente.

Os testemunhos

Uno5O arcebispo começou o ato dizendo que chegou a hora para lançar um olhar diferente sobre Camilo e reconhecer o que o seu pensamento e o seu compromisso poderiam significar hoje para a reconciliação em base à justiça. Seguiram-se colocações de testemunhos sobre a vida de Camilo. A minha, em que expus refletindo desde o tempo em que o convidei, em 1954, para ir a Lovaina para estudar sociologia, e a do Pe. Javier Giraldo, SJ colombiano. Na minha intervenção, recordei a trajetória de Camilo e seu último compromisso que o levou à morte. Eu sempre pensei que um Camilo vivo teria sido melhor que um Camilo morto, mas o símbolo de seu sacrifício ultrapassou os limites do tempo e do espaço. Em Kerala, no sul da Índia, um jovem pescador católico, que leu um texto meu sobre Camilo, deu ao seu primeiro filho o nome de Camilo Torres.

Camilo escolheu a resistência armada, o que pode parecer contraditório com uma mensagem cristã de paz e de amor ao próximo e mais ainda com a função sacerdotal. No entanto, vivemos em um mundo violento e não se pode negar aos oprimidos o direito à resistência, que pode desembocar em uma revolta armada, quando se trata de optar por esta, como último recurso, com possibilidade de êxito e no processo de luta rechaçar o uso de meios eticamente inaceitáveis, como o terrorismo, a tortura ou os sequestros. Na época de Camilo acontecia isto.

Cinquenta anos depois, as circunstâncias mudaram e, sem dúvida, ele apoiaria as negociações de paz. No entanto, da experiência de Camilo como analista e líder social, pode-se inferir que o fim do conflito armado não significa o fim das lutas sociais. A burguesia colombiana, uma das mais cultas do continente, mas também uma das mais cínicas, não abandonará sem mais sua hegemonia econômica, política e social. Camilo, que pertencia a esta classe, sabia isso muito bem.

O Pe. Javier Giraldo, S.J., insistiu na posição de Camilo quando era capelão da Universidade Central de Bogotá, onde descobriu a necessidade de outra concepção de pastoral: não partir de uma doutrina para inseri-la na vida, mas da descoberta da realidade para dar uma resposta inspirada nos valores da paz e do amor do Reino de Deus. Neste aspecto, Camilo sofreu a influência de seus contatos na Europa com a Juventude Operária Católica (JOC) e o método desenvolvido por seu fundador Joseph Cardijn: ver, julgar e agir.

Um xamã indígena tomou a palavra em nome dos numerosos povos originários da Colômbia e agradeceu à Mãe Terra por este encontro em memória de Camilo. Ele fez referência às milhares de vítimas indígenas, deslocados de suas terras pelas empresas petroleiras e as mineradoras e às numerosas pessoas assassinadas. Recordou que ao lado deCamilo houve também outros padres que deram suas vidas.

Na sequência, foi celebrada a eucaristia. A primeira leitura, tomada de São Paulo sobre Cristo que morreu para dar a vida, e a do Evangelho, tomado de Mateus sobre o juízo final, onde Deus recompensa os que deram de comer aos famintos, vestiram aqueles que estavam nus e visitaram os prisioneiros. A homilia do arcebispo foi precedida pela leitura da mensagem de Camilo aos cristãos quando partiu para a montanha.

Em seu sermão, o arcebispo abordou três temas: Camilo ofereceu sua vida; sua mensagem sempre foi uma palavra de unidade, o que nos indica o caminho a seguir para o futuro; e o ano da misericórdia, proposto pelo Papa Francisco e que coincide com os 50 anos da morte de Camilo, que daria seus frutos caso se incluísse a dimensão da justiça.

No ofertório, foi cantado um canto da Missa Campesina da Nicarágua. O abraço da paz foi compartilhado por todos os participantes e o canto final da missa foi seguido pelo longo aplauso de uma assembleia alegre por ter podido participar deste reconhecimento a Camilo como cristão e como padre.

Eu intervim também dizendo: “Para mim, Camilo está vivo, porque seu pensamento e seu exemplo são muito importantes na expressão da fé cristã hoje. Necessita-se de uma transformação das estruturas da sociedade, porque pregar o amor sem transformá-la para permitir que este amor seja eficaz, é pura ideologia. Caso levarmos a sério a mensagem de Jesus, a maneira como ele agiu em sua própria sociedade, não podemos pensar que a mensagem cristã é ‘ópio do povo’. Pelo contrário, é uma base de emancipação e de liberdade”.

Dom Darío Monsalve encerrou o dia dizendo: “A luta que Camilo travou é a de um cristão para transformar as injustiças sociais. Camilo via essa desproporção tão grande entre a grande maioria de excluídos e a minoria privilegiada. E quando ele mesmo foi caindo entre os excluídos da Igreja católica e estigmatizado por sua ideias, que o impediram de viver e manifestar-se na sociedade, foi empurrado para a clandestinidade e a unir-se com aqueles que o acolheram”. Esta reabilitação de Camilo Torres não teria sido possível sem a abertura de novos espaços proporcionados pelo Papa Francisco.

francois-fotoFrançois Houtart.

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