MÍSTICA E MILITÂNCIA

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A teóloga e coordenadora dos encontros de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, Rose Costa, em junho de 2018, esteve em Itaquera refletindo com membros da Igreja Povo de Deus em Movimento sobre mística e militância. Tema que toma urgência em tempos de criminalização dos movimentos sociais, recrudescimento das lutas e o império da subjetividade neoliberal. Leiam-na e partilhem com seus/suas companheiros/as. Coord. IPDM.

Mística e Militância

Itaquera, 15 de junho de 2018

“Ver um mundo em um grão de areia
e um céu numa flor selvagem
é ter o infinito na palma da mão
e a eternidade em uma hora”
(William Blake)

Espiritualidade é postura de vida (“ver o mundo num grão de areia e o paraíso numa flor do campo”),
mística é o seu exercício (“segurar o infinito na palma da mão”), e,
militância política sua consequência (“e a eternidade numa hora”, W.B).

O primeiro eixo – uma nova dinâmica de planejamento. Ela é marcada pelas estruturas dialógicas e não mais pela concepção de individualidade. A juventude já se compreende como texto aberto, plural, capaz de muitas vozes, novos acordos, novos significados.

Neste novo campo relacional, a proximidade é um dos eixos. Para o mundo religioso com base judaico-cristã, não estamos exatamente falando de uma mudança de paradigma ou de uma novidade epistemológica e sim do resgate do centramento vital, no encontro com o outro, na relação dialógica, para a experiência do crer que se traduz em amor, como lembra a epístola joanina – “Amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus; e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Quem não ama não descobriu a Deus, porque Deus é amor”. (1Jo 4,7) Só a experiência do amor é capaz de superar a aporia do conhecimento sem amor.

 O segundo eixo orientador nos conduz a uma dialogia marcada por narrativas pessoais e coletivas, mais etnográfica e biográfica, do que investigativa ou filosófica –  uma integração profunda entre memória pessoal e coletiva, entre história pessoal e coletiva. Ou seja, as histórias de vida pessoais são compreendidas como um conjunto de histórias que antecedem cada pessoa, vividos não apenas pela pessoa que narra, mas constituinte de sua biografia, de sua identidade e pertencimento.

Esse exercício dialógico não é uma ferramenta. É um princípio ativo que proporciona a interação e a constituição das identidades pessoais e coletivas na direção das metas também pessoais e coletivas. Esta é uma das dimensões proféticas dos movimentos de juventude, pois, ao se compreenderem como identidade pessoal e coletiva, como corpos e vidas de muitas vozes e histórias, abraçam pessoal e comunitariamente as causas de grupos, etnias, expressões religiosas, escolhas diversas como, por exemplo, a causa da luta contra o extermínio da juventude negra, pobre e periférica; a luta pela justiça no campo, pela dignidade dos povos indígenas e quilombolas; as lutas contra qualquer tipo de intolerância.

 O terceiro eixo que desejamos demarcar consiste na articulação entre os mínimos de justiça e os máximos de felicidade. É uma perspectiva ética que articula os direitos humanos fundamentais e a realização das escolhas religiosas, estéticas, de lazer, de realização profissional. Na medida em que a luta pela justiça e pela dignidade de todos e todas se torna central, se abre um leque de diagnósticos de situações desumanizantes e também de necessidades a serem conquistadas e construídas. Muitas causas entram nesse leque como, por exemplo, a igualdade de oportunidades, a assistência à saúde, a oferta e acolhimento de projetos pedagógicos, o apoio à moradia e ao transporte público de qualidade. São as reivindicações dos mínimos de justiça.

Essa experiência reflete a compreensão mais ampla de cidadania, como exercício político local da comunidade civil, para conviver de forma organizada, digna e pacífica, com a garantia de um mínimo de valores para todos e para cada pessoa. E avança para uma segunda instância, na qual percebemos o exercício dialógico com cada pessoa, como membros da grande comunidade humana e sociocósmica. Portanto, concretamente, integram as duas instâncias, dos mínimos de justiça e dos máximos de felicidade.

 O quarto eixo presente trata da relação com a terra, com o solo, com as vozes que ecoam do chão, dos corpos, das vidas, ou seja, nos fala de empatia, sintonia profunda, consciência da primazia da vida e corresponsabilidade ética local e global. Sendo assim, as pautas e estratégias, integram o cuidado com o ambiente com todas as demais dimensões: social, econômica, política, cultural, afetiva – é o que podemos chamar de mística da terra. Esta é uma experiência concreta dos povos da terra, indígenas e quilombolas, que foi, em muitas culturas, perdida em função das práticas desenvolvimentistas e distantes do respeito ao ambiente natural.

 Um quinto e último eixo referencial nos remete às alianças e pactos que vão sendo construídos e demarcam ritos e marcos históricos. Esta é uma das grandes heranças de Medellín para a América Latina: a luta pela justiça e a legitimidade da luta pela libertação de todos os homens e mulheres que sofrem pelos processos de desumanização. Esta herança é expressa de forma concreta em um ritual muito presente nas assembleias, reuniões, movimentos juvenis, que são as Cartas-compromisso. São cartas-força dos movimentos, elas expressão a dinâmica de memória, história e continuidade do projeto comum.

 Dimensão utópica/escatológica

DSC06628Um cotidiano dinamizado por dois olhares: um olhar fundado na Revelação e outro olhar voltado para o tempo presente. Só que, da mesma forma que nossos dois olhos confluem em uma única imagem, aqui também há um processo que dialoga e registra uma única imagem: traz para o cotidiano tanto a fundamentação e o horizonte provenientes da Revelação, como a análise dos sinais dos tempos e a busca de atitudes de aproximação cada vez maior com o projeto de Amor.

esperança, como aquela que dá significado ao olhar, ao agir e às orientações pessoal e comunitária;

enraizamento no cotidiano, na história, na abertura e transformação do presente;

Deus que se faz próximo e embasa as esperanças e as escolhas e orientações do ser humano na história.

  1. “Um dia, meus olhos ainda hão de ver na luz do olhar o amanhecer” (VILA, Luiz Carlos. Por um dia de graça. Música Popular Brasileira, Rio de Janeiro, 1980)

Onde nasce a esperança? Como ela se sustenta? O que ela é capaz de movimentar? Estamos no terreno das utopias? É possível ao ser humano viver sem esperança? São algumas das questões que nos advém…

A esperança pertence à estrutura fundamental do ser humano. Aspira o novo, sonha, aventura-se, corre riscos, se angustia com os limites, transgride, vai além. Sua aspiração fundamental não se satisfaz dentro do horizonte presente, pois o ser humano não coincide com sua existência concreta. Isso porque vivemos em tensão dialética entre o que já experimentamos, e o que ainda temos pela frente, que dinamiza e potencializa o momento presente.

A esperança humana tem uma dimensão pessoal, mas não se esgota nela. O ser humano potencializa o desejo para si e para os demais, para a humanidade e para o cosmos.

A esperança, portanto, não se dá em solo estéril. Ela possui estruturas fundamentais que  embasam, sustentam e que fazem com que a pessoa faça suas ‘apostas’ no tempo que ainda virá. Usando um conceito muito materno e também gerador de vida nova, podemos dizer que a esperança engravida a pessoa, possibilita um processo de abertura dialógica para a dinâmica da Revelação que está ocorrendo na história e na qual ela se insere como co-participante. É uma ‘gravidez’ latente, que abre possibilidades, corrobora na seleção de gestos, atitudes, palavras, configurando incessantemente a orientação fundamental da pessoa e a comunidade.

2. “Em Mangueira a poesia num sobe e desce constante anda descalça ensinando um modo novo da gente viver: de sonhar, de pensar e sofrer”. (CARVALHO, Hermínio Bello e VIOLA, Paulinho. Sei lá, Mangueira. Música Popular Brasileira, Rio de Janeiro, 1968)

A esperança nasce na experiência, é acolhida como um dom, que mobiliza todo o ser da pessoa, provocando uma revolução no mais profundo do ser humano. Torna-se, assim, força mobilizadora e também força libertadora da história.

Aqui se encontram o universo cotidiano e o projeto dinâmico da criação. A mística militante torna-se convite ao agir cotidiano, no hoje, no presente. Neste ‘cotidiano’ articulam-se o agir pessoal e agir comunitário. De forma dialógica, uma dimensão envia à outra em uma circularidade renovadora de significados e de práticas. Pertence também ao real, o potencial, o que ainda não é e pode ser. Por isso, a utopia não se antagoniza com a realidade, mas revela a dimensão potencial do presente.

whipalhaUtopia e esperança mantêm uma relação de proximidade e de diálogo e não uma identificação plena. A primeira se nutre do sonho, do desejo de superação das dificuldades e da realização mais plenas.  A esperança brota e se desenvolve no mesmo chão, mas tem sua origem e seu horizonte não definido totalmente pelas condições temporais e históricas. A esperança orienta projetos concretos na direção do grande projeto, do Reino de Deus, sem, contudo, absolutizá-los, colocando neles toda a sua expectativa. Ao relativizar o projeto, ao garantir a relação de mediação em direção a um fim último e garantido por Deus, a esperança salva a utopia do totalitarismo, da amargura da frustração, do radicalismo, e até mesmo do orgulho de um pensar hegemônico e que dispensa as alteridades humana e divina.

3. “Há quem fale que é um divino mistério profundo. É o sopro do Criador numa atitude repleta de amor” ( GONZAGA JR., L. O que é? O que é? Música Popular Brasileira. 1982)

Mística e cotidiano fazem pensar em parceria, em um Deus que passeia por sua Criação, em um Deus com o qual se dialoga, que está dentro da história, na vida simples, nas situações comuns. É isso mesmo, a mística militante identifica-se com a proximidade salvífica de Deus, pela presença de sua ternura, cuidado e força salvífica nas situações humanas, nas pequenas e grandes questões que orientam o sentido do viver.

Qual a imagem de Deus que trazemos quando pensamos em sentido, em esperança? Ela será um bom termômetro para compreendermos a ótica de cada pessoa com relação ao sentido do viver.

O povo da Bíblia nos inspira nessa experiência de base. Ao longo de sua trajetória se deparar com questões fundamentais quanto à imagem de Deus, dialogam com as culturas de seu tempo e, pouco a pouco, se abrem para o Deus que se revela em sua própria história. Algumas interpelações que o povo da Bíblia se faz e também nós,hoje : Quem é Deus? Como se relaciona com a Criação? Está presente no cotidiano, na história dos povos? Não são questões de respostas simples ou imediatas, nem tampouco para fórmulas teológicas. São perguntas que nos remetem à nossa relação com o transcendente. Remetem-nos às imagens de Deus que carregamos em nosso universo de significados e, portanto, de sentidos que embasam e orientam as escolhas e o jeito de entender a vida.

Experimentar a proximidade protetora de Deus é se colocar em sua presença definitiva, abrasadora, amorosa, misericordiosa, que tudo enlaça e reorienta no amor. O cotidiano é assim invadido pelo amor de Deus. O tempo cronológico está aberto ao kairológico, ou seja, todo o tempo é assumido na graça que é presente. Esta sim é absoluta e tudo o mais se torna relativo, processo, mediação, superação, estrada.

Esta experiência da proximidade de Deus funda a certeza-esperança. O encontro com o absoluto no cotidiano é a presença do sentido último na trajetória de cada homem, de cada mulher, de cada ser criado, de toda dinâmica cósmica.

É diferente de sentir saudade de um Deus que passeia conosco. É perscrutar sua presença entre os jardins da história, é perceber e sentir os sinais de sua parceria amorosa e respeitosa. É tocar suas lágrimas no chão da história de dor, de falta de cuidado, de desumanização, de rejeição dos projetos de amor. É ouvir a música que brota da alegria da fraternidade, da justiça, da paz construída nos pequenos-grandes gestos do cotidiano. Sim, é desejo de um encontro pleno, mas é também presença que alinhava o sentido de nossas vidas.

Diante da presença próxima de Deus construímos outra noção de tempo. A provisoriedade do tempo cronológico torna-se mais clara. A relação dialógica e dinâmica com Deus relativiza o tempo histórico. Isso não significa que a história é reduzida, ao contrário, é assumida no projeto salvífico. Não há salvação fora da história, fora da criação, fora do processo de liberdade e responsabilidade, fora da acolhida livre e da resposta no amor que se revela e abraça tudo e todos. É uma dimensão que nos leva a viver o tempo como abertura e não como definitivo. Aberto às surpresas, à novidade, e a maior delas é o futuro absoluto de Deus, oferecido em dom e graça.

A proximidade de Deus nos remete à sua ação soberana, livre, à sua iniciativa, à realidade do Reino. É um Deus voltado para os homens, com face de amor, graça e dom. É proximidade carregada de alegria, de paz, de felicidade. É também discernimento, juízo e apelo à conversão.

21151601_228306017694217_6635641667402888954_nEnfim, a proximidade salvífica de Deus é convite à parceria criativa, consciente, humanizadora, libertadora de todas as amarras que os condicionamentos sociais, psíquicos, econômicos têm imprimido ao projeto da Criação. Homens e mulheres são, nesse dinamismo, partícipes do grande projeto escatológico. Liberdades criativas atuando na história e destinados à realização da grande comunidade humana e cósmica.

A mística militante nos diz que não somos condenados eternamente a relações desumanizantes, a dificuldades internas pessoais e inter-relacionais, mas que somos abraçados por um Deus Pai que nos torna irmãos e irmãs, que estamos unidos fundamentalmente a todo o universo em uma dinâmica de integração profunda. Este é o ideal que está inscrito nas potencialidades do já vivido, do já experimentado, do que é estruturado na história da humanidade e aberto à libertação integral.

21558530_231871964004289_2881466442579068201_nRose Costa, teóloga, mestre pela PUC-Rio em mistagogia, fez parte da Equipe de Facilitação dos Encontros de Juventudes e Espiritualidade Libertadora (2014 e 2017). concluiu Bacharelado em Filosofia na UERJ em 1984 e Bacharelado em teologia na PUC-Rio em 2001. Desenvolveu projeto de Iniciação à Pesquisa pelo CNPQ sobre o tema da Violência e Não-Violência. Participou de diversos congressos na área de Educação e de Teologia e atua como Educadora Religiosa em escolas e paróquias. É professora de Filosofia e Ensino Religioso na Rede Estadual e coordenadora do Curso de Evangelização e Pedagogia da Fé do Centro Loyola de Fé e Cultura da PUCRio.

Contato: rosenandescosta@gmail.com

 

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