Sobre o combate ao Kyriocentrismo

10995450_1008328629194496_6084714743704679389_nO feminino caminho à Deus e caminho de Deus, significa não só o sexo feminino mas significa o feminino em nós, mulheres e homens, como o masculino em nós mulheres e homens, e esse feminino e masculino que somos cada um de nós, é capaz de se aproximar da outra e do outro. Ouvir, ver e sentir sua dor e seu lamento. E dizer, primeiramente baixinho: o amor se fez carne em mim, e se o amor se fez carne em mim, e em nós, tudo pode ser manifestação desse amor, como tudo pode ser manifestação do desamor. Então eu acredito que esse Espírito de vida que está em cada gênero, em cada sexo, em cada ser sexuado e que está também nos seres animais, vegetais e no universo inteiro, esse espírito está nos chamando para termos uma especial atenção à vida das mulheres que sofrem violência domestica, violência social, do trabalho, dos meios de comunicação e violência das igrejas.

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Ivone Gebara,
filósofa e teóloga feminista/ecofeminista. Ocasião em que proferiu a homilia da Paróquia Nossa Senhora do Carmo em Itaquera, São Paulo, o tema: “O Feminino caminho de Deus e caminho a Deus”.

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Minha fé

por Ivone Gebara.

Parece tão simples discorrer sobre a fé se apenas repetirmos o Catecismo que nos foi ensinado. A gente decorava as verdades da fé e discorria sobre elas como aula bem aprendida. A lembrança da fé como virtude teologal, como força dada por Deus para sustentar nossa vida diária na linha do bem e da justiça fez parte da formação religiosa de muitas pessoas. A fé tinha apenas caráter construtivo positivo, estava só na direção do bem a todas as pessoas. Entretanto, quando a pergunta vem depois de muitos anos vividos as respostas do Catecismo, embora conservem sua pertinência, já não fazem eco de nossa verdade, ou melhor, da verdade de minha fé nos limites de meu hoje. Continuar lendo

Sobre a resistência: busca e contradições

Ivone Gebara*
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Os quilombolas no Brasil são um exemplo histórico de resistência contra a dominação branca dos grandes senhores. São, ainda hoje, uma referência para muitas lutas; não apenas da comunidade negra brasileira, mas de muitos movimentos sociais que se inspiraram de seu exemplo de resistência.

São eles que, nesse momento, me inspiram a pensar numa petição presente na oração do Pai Nosso que segundo a Tradição evangélica nos foi ensinada por Jesus. “Livrai-nos do mal” ou ajuda-nos a resistir ao mal. De que mal somos convidados a resistir ou de que mal pedimos para sermos livrados? De que mal os quilombolas queriam ser livrados? E de que mal os outros, os que os escravizavam queriam ser livrados?

A história passada e a história presente narram fatos desde perspectivas diversas. Contam feitos de heróis e de perseguidores impiedosos e sanguinários. Contam de sofrimentos sem fim. Entretanto, sabemos que o mistério do mal é bem maior do que aquilo que sabemos dele. Entranhado em nós, fazendo corpo em nosso corpo, mentindo em nossa mente, matando com palavras, ações e omissões, o mistério do mal segue nos desafiando.

Na verdade, o mal é plural. Há muitos males de que temos que nos livrar em nossa vida cotidiana. Cada um de nós conhece sua dor, embora conheça menos a dor que provoca nos outros. O enraizamento no eu é tão forte que é mais fácil acusar o outro e inocentar-se a si mesmo. É mais fácil desculpar-se do que se aproximar do sofrimento alheio e aliviá-lo.

Para além do mal da doença que assola o corpo e tem origens diversificadas, há outros males que, vividos no corpo, aparecem como provocados por outros seres semelhantes a nós. Os outros se tornam a origem de nosso mal na medida em que não nos reconhecem como semelhantes com direitos e deveres. Esses são os chamados males sociais. É nessa linha que se pode dizer que um dos males pessoais e coletivos mais perniciosos é o mal de não enxergar a condição do outro, a dor alheia, o sofrimento que vive, sobretudo quando este outro é diferente de nós. Muitas vezes é a nossa ideologia ou nosso egoísmo ou são as nossas crenças culturais que tornam o outro indigno, inimigo, inferior, ignorante. Acentuamos as hierarquias como se estas fossem originadas da vontade de forças superiores a nós. Aceitamos castas e elites como se fosse algo natural. Ideologizamos a natureza para servir aos nossos interesses.

No fundo para enxergar a dor alheia temos não apenas de enxergar o sofrimento dos que estão próximos de nós, mas os sofrimentos daqueles de quem nós nos fazemos próximos por decisão própria. E aí está a grande dificuldade e o desafio. À força de querermos defender só a nossa pele e os nossos interesses tornamo-nos distantes dos outros, dos que não são de nossa família, de nosso sexo, de nossa religião, de nossa classe, de nossa cor, de nossa cultura, de nossa idade.

Por isso, desde o mais profundo de nós mesmos temos que repetir: livremo-nos do mal da insensibilidade à dor alheia! É sobre esse mal que estou escrevendo. É um mal que nos acomete com muita freqüência e quase se torna algo habitual em nossa vida. E hoje, esse mal em nós é reforçado não só pelos limites de nosso ser, mas também pelos limites impostos pela organização política e econômica na qual vivemos. Temos a impressão de que a chamada sociedade globalizada é um gigante que muitas vezes se deita sobre nossos corpos e nos impede qualquer movimento diferente do permitido. Às vezes, mal dá para respirar, pois o gigante toma quase todo o espaço e chega a impedir que o ar entre livremente em nossas narinas. Mas, na realidade quanto mais nos movermos mesmo com dificuldade mais o gigante se sentirá incomodado e provavelmente mudará de posição e talvez se enfraqueça.

Na década de 1980 era comum dizermos que o trabalho dos movimentos populares e das comunidades era como de formigas revolvendo a terra e possibilitando a mudança e o crescimento da vida. Hoje, acredito que ainda há algo de verdade nessa analogia. Ela nos ajuda a perceber que há uma causa comum e a causa comum é a causa da própria humanidade, a causa do planeta no qual vivemos e do qual somos corpo. A causa comum é que somos uma humanidade comum embora ricamente diversificada e que, para que uns vivam todos têm que viver.

Se cada um abraçar apenas a causa de sua sobrevivência, de seus interesses pereceremos. Se cada um apenas se preocupar com suas próprias dores nos tornamos insensíveis às dores alheias. E são justamente estas dores alheias que nos levam a sair de nosso estreito mundo, de nossos limitados interesses e a acolher o pluralismo da vida, das dores e sua impressionante complexidade. A manutenção desse pluralismo interessa a todos e é responsabilidade de todos.
A finitude inerente à nossa própria existência é a condição que nos leva a perceber a interdependência entre nós, embora possa também levar-nos a um fechamento egocêntrico.  Equivocadamente muitos pensam que se salvarem apenas a sua pele poderão subsistir e gozar de dias felizes. E deixam assim a força do “homem lobo para o homem” conduzir seus comportamentos e seus afetos. Tornam os outros, aqueles que os molestam com suas reivindicações justas, inimigos e fazem de sua vida um verdadeiro inferno. Perseguem-nos e os impedem de ascender a uma vida digna e respeitosa.

Livremo-nos do mal de sermos incapazes de enxergar para além de nós mesmos, de nossos interesses de classe, de partido, de casta ou de religião.
Aprender a resistir ao mal da egolatria ou do classismo ou de outras formas hierárquicas de convivência é um caminho de abertura em vista da dignidade à qual todos nós temos direito. O sabor da resistência e sua possível vitória são sempre acompanhados pelas contradições que fazem parte de nossa humanidade. Ninguém de nós é imune das contradições de fazer de nosso semelhante um inimigo, de desejar sua morte de diferentes formas. E quanto mais o outro se torna nosso inimigo mais nos distanciamos dele e instauramos um abismo em nossa própria humanidade. Somos criadores de abismos entre etnias, entre classes, entre gêneros, entre culturas e entre religiões. Fugimos uns dos outros temendo perder a própria vida. E não apenas tememos perder a vida, mas a história nos confirma que de fato a perdemos nos combates e nas estúpidas guerras. E no meio destas tantas perdições, ao longe, ouvimos uma voz que vem da antiga tradição cristã: “quem não perder a sua vida por amor não poderá guardá-la”. Amor que significa direito de vida aos que estão aí, pisando o mesmo chão, respirando o mesmo ar, bebendo da mesma água, plantando e colhendo da mesma terra. Perder sua vida significa no texto bíblico perder algo que restringe a vida, que a diminui e a reduz a mera sobrevivência. Perder sua vida individualista para ganhar em qualidade de vida para todos.

Haverá caminhos de reconciliação do homem com sua humanidade plural?

Inventamos deuses múltiplos e eles brigaram entre si. Inventamos o Deus único e ele não resolveu a questão. Partimos para o ateísmo e este acentuou nossas rixas e nossa violência. Adoramos a razão científica e esta produziu armas para nossa própria destruição? Que nos resta fazer? Onde iremos buscar novas forças?

Ousemos sair de nossas tocas. Olhar as crianças negras, as brancas, as amarelas, as misturadas e perceber nelas a extraordinária beleza da diversidade de um ramalhete de flores do campo. Uma única cor leva à monotonia. Uma única nota leva ao extremo cansaço. Uma só língua cria o Império dominador. Uma só ordem cria a desordem.

Ousemos sair de nossas tocas e aprender a ver, a ouvir, a degustar, a sentir o mundo para além de nosso estreito mundo. E ao fazer isso querer que este mundo tão diverso tenha vida em abundância. Quem sabe haveria aí uma porta escondida que poderá abrir-se e permitir que experimentemos o gozo escondido de pertencermos a uma humanidade comum? Quem sabe aprenderemos a descobrir mais os encantos da diferença do que a monotonia aterradora do mesmo? Quem sabe…  Quem sabe…

Ivone-Gebara*Ivone Gebara, freira Católica, filósofa e teóloga feminista. Autora de mais de trinta livros e inúmeros artigos publicados em português, espanhol, francês, inglês e alemão. Dentre suas principais obras, destacam-se: O que é Teologia Feminista (2007), O que é Cristianismo (2008), Compartilhar os pães e os peixes. O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), Vulnerabiliade, justiça e feminismos – antologia de textos (2010), Terra – Eco Sagrado (Teologia da Libertação e Educação Popular) e Teologia Urbana: Ensaios sobre ética, gênero, meio ambiente e a condição humana.

CATOLICISMO E HOMOAFETIVIDADE – PARTE II

(CONTINUAÇÃO)
Eduardo Galeano - Sonhando um corpo como festa

Por Padre Paulo Bezerra.

  1. Há um “novo arco-íris” no cenário
                A novela “Amor à vida”, da Globo, no último capitulo levado ao ar no dia 31 de janeiro de 2014, saciou o desejado e esperado “beijo gay”, protagonizado pelos personagens Félix e Niko, interpretados respectivamente pelos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso. Os pontos de audiência subiram aos píncaros entre ovações de vitória (talvez a maioria dos espectadores) e impropérios de condenação. As novelas não impõem padrões comportamentais. Elas expõem o que está por aí…

            A revolução econômica e política depois dos anos 70, – lembra-nos Comblin, – transferiu Corpos entrelaçados“poderes com repercussões imensas na vida diária das pessoas como na vida social” – a revolução cultural. “Um elemento importante dessa revolução foi, e ainda é, a crítica sistemática de todas as instituições, denunciadas como máquinas de poder e de repressão da liberdade e da personalidade individual” [1]. Não escapou nenhuma das instituições, a começar pela família, educação, Igreja(s) chegando hoje à feroz crítica do Estado estampada nas manifestações de rua que, sobretudo a partir de junho de 2013, evidenciaram que o “gigante acordou”. Ainda impossível prever se acordou de um sonho, apenas, ou se despertou para forjar uma “nova aurora”… Desprestigiadas pela crítica e evidenciada a sua decadência inúmeras instituições e associações entraram no caminho da corrupção que, no dizer de Comblin, “se tornou a nova instituição social”.

            A “revolução cultural” traz a marca do “despertar da liberdade pessoal” e trouxe muitos “valores positivos” e, sobretudo, “valores definitivos contra os quais é em vão lutar”. Enumera-os Comblin: a emancipação da mulher; o despertar da consciência de liberdade dos jovens, “ainda que contaminada pelo consumismo”; uma consciência religiosa libertada do “estilo penitencial de espiritualidade” calcada sobre as exigências de sacrifícios e mortificações em vista dos méritos diante de Deus-juiz. “Depois da revolução cultural, milhões de homens e, sobretudo, de mulheres saíram da Igreja, não por motivos de doutrina ou de crenças, mas porque não aceitavam mais o estilo penitencial da espiritualidade que se ensinava. (…) o que rejeitam não são os dogmas, menos ainda o Evangelho, mas a austeridade de vida, a preocupação constante pelo pecado e o medo que se infundia na consciência do pecador. Os jovens fogem disso como da peste. Não querem nem saber ” [2].

            Depois de séculos de “espiritualidade penitencial” sem páscoa parece-nos “tatuada”, na alma católica, a compreensão de sexo como pecado. Sedimentou-se tal tipo de compreensão filosófico-religiosa de natureza humana como “algo, um conteúdo mais ou menos fixo ou mais ou menos imutável ao qual atribuímos este conceito. Com frequência ouvimos expressões como: ‘isto é da natureza’, ‘isto é contra a natureza’, ‘os seres da natureza’, ‘pecados contra a natureza’ e assim por diante. (…) Estabeleceu-se desta forma uma ordem natural que muitas vezes foi identificada à vontade de Deus ou mais precisamente, à vontade de um conceito sobre Deus. (…) Criou-se assim uma espécie de limite entre a vontade de Deus e a vontade dos seres humanos, como se fosse uma barreira que não poderá ser ultrapassada, uma barreira que funciona igualmente como limite para a vida e a moralidade dos seres humanos” [3] .

Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.
Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.

Em todas as épocas e em todas as culturas, no entanto, houve mulheres e homens que sentiram atração por pessoas do próprio sexo. A satisfação de desejos e prazeres está aí a questionar certa visão de “lei natural”. É possível falar da homoafetividade como uma constante na história da humanidade. São preconceituosas as teorias de que os “desejos homossexuais só haveriam de manifestar-se em sociedades que se encontram em situação de declínio. As artes e literaturas de todas as épocas descrevem relações sexuais e de amizade, aventuras e histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo. Tais descrições são provenientes de sociedades e de desenvolvimentos de toda espécie, prósperos e em declínio[4].

            Há um “novo arco-íris” no cenário contemporâneo. A “saída do armário” tomou conta das mega-manifestações das Paradas Gays. “A partir de meados da década de 70, o tema do amor homossexual começou a furar a barreira da censura e dos setores mais reacionários, para chegar até as capas de revistas de circulação nacional – caso da Isto é que, dois anos antes da Time, apresentou em sua capa duas mãos masculinas ternamente enlaçadas” [5]. Na mesma intensidade e direção foram o teatro e o cinema.

            O “novo arco-íris” LGBTs surge depois de catastróficas tempestades e torrenciais chuvas de granizos condensadas pelo gelo da homofobia levada às mais baixas temperaturas pelo pensamento único e deontológico. A bandeira foi desfraldada de tal maneira que recolhê-la será contrassenso . Suas sete cores não se impõem. Tão somente se expõem e se apresentam. Como o Arco da Aliança do Livro Sagrado do Gênesis mendiga também  um lugar novo para a humanidade: nunca mais o antigo dilúvio! Convida à comunhão, ao prazer, à festa, à fecundidade de todo relacionamento, mesmo que nem sempre reprodutivo da espécie humana.

            A existência humana é um caleidoscópio que se reparte em cores. No dizer de Antônio Moser, “se há algo que nos intriga é o caráter enigmático da vida humana e de todos os seus componentes.  (…) Entre as questões mais enigmáticas encontram-se as que se referem à sexualidade. Por isso é compreensível que, desde sempre, e das mais diversas formas, a humanidade tenha se interrogado sobre a proveniência e o sentido desta força estranha e determinante da vida humana (…)” [6]. E, deste caleidoscópio, as mãos GLBTs não são as únicas a manipulá-lo, embora aptas a tal.

  1. Conclusão: aspirações intuitivas
                Enquanto a sexualidade for “engessada” em categorias dogmáticas (teologicamente desencarnada)… Enquanto for motivo de “curiosidade sobre a vida alheia” (antropologicamente desprezada)… Enquanto for “reprimida” (psicologicamente não considerada)… Enquanto for produto mercadológico de violência e de frustração (socialmente despersonalizada)… Enquanto for reduzida a parâmetros culturais (filosoficamente desconhecida)… Enquanto for devassada, chantageada, criminalizada… é porque “temos medo do que somos e inibimos nossas expressões naturais, uma vez que ficamos tolhidos por injunções deformadoras de nossas personalidades” (Eduardo Hoonaert).

            Vergados, então, sob a “espada de Dâmocles” rejeitamos, conscientes ou não,  que a “sexualidade é uma moradia com muitas janelas abertas para o mundo” [7].

AutorPe. Paulo Sérgio Bezerra
pároco de Nossa Senhora do Carmo – Itaquera
Diocese de São Miguel Paulista

[1] JOSE COMBLIN, op. cit., p. 40.
[2] JOSE COMBLIN, op. cit., p. 43
[3] IVONE GEBARA, “Visitando o conceito de natureza humana”, in: Concilium Revista Internacional de Teologia, 336 (2010/3), Vozes, Petrópolis, p. 141 [438] – 142 [439].
[4] NORBERT RECK, “Desejos perigosos –  o discurso católico sobre a sexualidade homossexual”, in: Concilium Revista Internacional de Teologia, 324 (2008/1), Vozes, Petrópolis, p. 14.
[5] JOÃO SILVÉRIO TREVISAN. Devassos no paraíso, Editora Max Limonad, São Paulo, 1986, p. 175.
[6] ANTÔNIO MOSER. O Enigma da Esfinge: a sexualidade. Vozes, Petrópolis, 2004, p. 21.
[7] ANTÔNIO MOSER, op. cit., p.35.