Sobre a resistência: busca e contradições

Ivone Gebara*
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Os quilombolas no Brasil são um exemplo histórico de resistência contra a dominação branca dos grandes senhores. São, ainda hoje, uma referência para muitas lutas; não apenas da comunidade negra brasileira, mas de muitos movimentos sociais que se inspiraram de seu exemplo de resistência.

São eles que, nesse momento, me inspiram a pensar numa petição presente na oração do Pai Nosso que segundo a Tradição evangélica nos foi ensinada por Jesus. “Livrai-nos do mal” ou ajuda-nos a resistir ao mal. De que mal somos convidados a resistir ou de que mal pedimos para sermos livrados? De que mal os quilombolas queriam ser livrados? E de que mal os outros, os que os escravizavam queriam ser livrados?

A história passada e a história presente narram fatos desde perspectivas diversas. Contam feitos de heróis e de perseguidores impiedosos e sanguinários. Contam de sofrimentos sem fim. Entretanto, sabemos que o mistério do mal é bem maior do que aquilo que sabemos dele. Entranhado em nós, fazendo corpo em nosso corpo, mentindo em nossa mente, matando com palavras, ações e omissões, o mistério do mal segue nos desafiando.

Na verdade, o mal é plural. Há muitos males de que temos que nos livrar em nossa vida cotidiana. Cada um de nós conhece sua dor, embora conheça menos a dor que provoca nos outros. O enraizamento no eu é tão forte que é mais fácil acusar o outro e inocentar-se a si mesmo. É mais fácil desculpar-se do que se aproximar do sofrimento alheio e aliviá-lo.

Para além do mal da doença que assola o corpo e tem origens diversificadas, há outros males que, vividos no corpo, aparecem como provocados por outros seres semelhantes a nós. Os outros se tornam a origem de nosso mal na medida em que não nos reconhecem como semelhantes com direitos e deveres. Esses são os chamados males sociais. É nessa linha que se pode dizer que um dos males pessoais e coletivos mais perniciosos é o mal de não enxergar a condição do outro, a dor alheia, o sofrimento que vive, sobretudo quando este outro é diferente de nós. Muitas vezes é a nossa ideologia ou nosso egoísmo ou são as nossas crenças culturais que tornam o outro indigno, inimigo, inferior, ignorante. Acentuamos as hierarquias como se estas fossem originadas da vontade de forças superiores a nós. Aceitamos castas e elites como se fosse algo natural. Ideologizamos a natureza para servir aos nossos interesses.

No fundo para enxergar a dor alheia temos não apenas de enxergar o sofrimento dos que estão próximos de nós, mas os sofrimentos daqueles de quem nós nos fazemos próximos por decisão própria. E aí está a grande dificuldade e o desafio. À força de querermos defender só a nossa pele e os nossos interesses tornamo-nos distantes dos outros, dos que não são de nossa família, de nosso sexo, de nossa religião, de nossa classe, de nossa cor, de nossa cultura, de nossa idade.

Por isso, desde o mais profundo de nós mesmos temos que repetir: livremo-nos do mal da insensibilidade à dor alheia! É sobre esse mal que estou escrevendo. É um mal que nos acomete com muita freqüência e quase se torna algo habitual em nossa vida. E hoje, esse mal em nós é reforçado não só pelos limites de nosso ser, mas também pelos limites impostos pela organização política e econômica na qual vivemos. Temos a impressão de que a chamada sociedade globalizada é um gigante que muitas vezes se deita sobre nossos corpos e nos impede qualquer movimento diferente do permitido. Às vezes, mal dá para respirar, pois o gigante toma quase todo o espaço e chega a impedir que o ar entre livremente em nossas narinas. Mas, na realidade quanto mais nos movermos mesmo com dificuldade mais o gigante se sentirá incomodado e provavelmente mudará de posição e talvez se enfraqueça.

Na década de 1980 era comum dizermos que o trabalho dos movimentos populares e das comunidades era como de formigas revolvendo a terra e possibilitando a mudança e o crescimento da vida. Hoje, acredito que ainda há algo de verdade nessa analogia. Ela nos ajuda a perceber que há uma causa comum e a causa comum é a causa da própria humanidade, a causa do planeta no qual vivemos e do qual somos corpo. A causa comum é que somos uma humanidade comum embora ricamente diversificada e que, para que uns vivam todos têm que viver.

Se cada um abraçar apenas a causa de sua sobrevivência, de seus interesses pereceremos. Se cada um apenas se preocupar com suas próprias dores nos tornamos insensíveis às dores alheias. E são justamente estas dores alheias que nos levam a sair de nosso estreito mundo, de nossos limitados interesses e a acolher o pluralismo da vida, das dores e sua impressionante complexidade. A manutenção desse pluralismo interessa a todos e é responsabilidade de todos.
A finitude inerente à nossa própria existência é a condição que nos leva a perceber a interdependência entre nós, embora possa também levar-nos a um fechamento egocêntrico.  Equivocadamente muitos pensam que se salvarem apenas a sua pele poderão subsistir e gozar de dias felizes. E deixam assim a força do “homem lobo para o homem” conduzir seus comportamentos e seus afetos. Tornam os outros, aqueles que os molestam com suas reivindicações justas, inimigos e fazem de sua vida um verdadeiro inferno. Perseguem-nos e os impedem de ascender a uma vida digna e respeitosa.

Livremo-nos do mal de sermos incapazes de enxergar para além de nós mesmos, de nossos interesses de classe, de partido, de casta ou de religião.
Aprender a resistir ao mal da egolatria ou do classismo ou de outras formas hierárquicas de convivência é um caminho de abertura em vista da dignidade à qual todos nós temos direito. O sabor da resistência e sua possível vitória são sempre acompanhados pelas contradições que fazem parte de nossa humanidade. Ninguém de nós é imune das contradições de fazer de nosso semelhante um inimigo, de desejar sua morte de diferentes formas. E quanto mais o outro se torna nosso inimigo mais nos distanciamos dele e instauramos um abismo em nossa própria humanidade. Somos criadores de abismos entre etnias, entre classes, entre gêneros, entre culturas e entre religiões. Fugimos uns dos outros temendo perder a própria vida. E não apenas tememos perder a vida, mas a história nos confirma que de fato a perdemos nos combates e nas estúpidas guerras. E no meio destas tantas perdições, ao longe, ouvimos uma voz que vem da antiga tradição cristã: “quem não perder a sua vida por amor não poderá guardá-la”. Amor que significa direito de vida aos que estão aí, pisando o mesmo chão, respirando o mesmo ar, bebendo da mesma água, plantando e colhendo da mesma terra. Perder sua vida significa no texto bíblico perder algo que restringe a vida, que a diminui e a reduz a mera sobrevivência. Perder sua vida individualista para ganhar em qualidade de vida para todos.

Haverá caminhos de reconciliação do homem com sua humanidade plural?

Inventamos deuses múltiplos e eles brigaram entre si. Inventamos o Deus único e ele não resolveu a questão. Partimos para o ateísmo e este acentuou nossas rixas e nossa violência. Adoramos a razão científica e esta produziu armas para nossa própria destruição? Que nos resta fazer? Onde iremos buscar novas forças?

Ousemos sair de nossas tocas. Olhar as crianças negras, as brancas, as amarelas, as misturadas e perceber nelas a extraordinária beleza da diversidade de um ramalhete de flores do campo. Uma única cor leva à monotonia. Uma única nota leva ao extremo cansaço. Uma só língua cria o Império dominador. Uma só ordem cria a desordem.

Ousemos sair de nossas tocas e aprender a ver, a ouvir, a degustar, a sentir o mundo para além de nosso estreito mundo. E ao fazer isso querer que este mundo tão diverso tenha vida em abundância. Quem sabe haveria aí uma porta escondida que poderá abrir-se e permitir que experimentemos o gozo escondido de pertencermos a uma humanidade comum? Quem sabe aprenderemos a descobrir mais os encantos da diferença do que a monotonia aterradora do mesmo? Quem sabe…  Quem sabe…

Ivone-Gebara*Ivone Gebara, freira Católica, filósofa e teóloga feminista. Autora de mais de trinta livros e inúmeros artigos publicados em português, espanhol, francês, inglês e alemão. Dentre suas principais obras, destacam-se: O que é Teologia Feminista (2007), O que é Cristianismo (2008), Compartilhar os pães e os peixes. O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), Vulnerabiliade, justiça e feminismos – antologia de textos (2010), Terra – Eco Sagrado (Teologia da Libertação e Educação Popular) e Teologia Urbana: Ensaios sobre ética, gênero, meio ambiente e a condição humana.

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A evangelização da juventude e o protagonismo juvenil.

Por Eduardo Brasileiro.
 
‘Ritualismos’ e opções pela ‘fuga do mundo’ são a marca majoritária da evangelização das juventudes na Igreja do Brasil.

 

Opção cenográficas que se assemelham a shows buscam fragilizar os participantes para assim se verem tomados por
Celebrações espetáculos, ritualizações da fé, através de discursos e ambientações focadas em mastigar a sensibilidade do jovem e transformá-lo num ser cheio de sofrimento e de pecados, culminando em sua recuperação quando “se encontra com Cristo”. E, sobretudo, a infantilização e dependência do jovem para com a igreja na sociedade de hoje.
 
 
O assunto de evangelização da juventude pouco volta à tona no meio eclesial, bem como nos reduzidos espaços de formação das pastorais da juventude no país. No entanto, a sua perda de prioridade nos condiciona a viver uma histeria coletiva de tendências do marketing e da indústria cultural dentro da igreja e, sobretudo, nas práticas rituais.
 
Em todo o Brasil a prática mais utilizada para evangelizar jovens é tentar afastá-lo do mundo, como se o mundo fosse objeto de afastamento e não de inserção para solucionar seus problemas.
Em todo o Brasil a prática mais utilizada para evangelizar jovens é tentar afastá-lo do mundo, como se o mundo fosse objeto de afastamento e não de inserção para solucionar seus problemas.

Encontros de jovens nas igrejas são marcados principalmente por shows (cristotecas, “barzinhos de Jesus”, etc), celebrações espetáculos, ritualizações da fé, através de discursos e ambientações focadas em mastigar a sensibilidade do jovem e transformá-lo num ser cheio de sofrimento e de pecados, culminando em sua recuperação quando “se encontra com Cristo”. E, sobretudo, a infantilização e dependência do jovem para com a igreja na sociedade de hoje.

 
Poderíamos ficar horas discutindo cada aspecto inerente a esses momentos. No entanto, haja vista que carecemos de espaços de discussão de outras possibilidades, me lanço na contramão do discurso homogêneo de evangelização da juventude e insisto na proposta de um evangelho encarnado no meio do povo e uma espiritualidade engajada em descobrir Jesus nas pessoas, numa proposta reinocêntrica.
 
A prática mais comum dos ensinamentos com a juventude é o enfrentamento com o mundo – onde tudo é mal -, e a criação de um espaço de “fuga da realidade”, fomentando a contenção da discussão dos processos de evolução da adolescência, juventude e a fase adulta, confluindo numa imposição de leis que serão determinantes no amadurecimento, ora de um sujeito fundamentalista, ora de um indivíduo decepcionado com o papel da religião em sua formação.
 
O Papa Paulo VI, implementador das decisões do Concilio Vaticano II, escreveu em 1974, na “Evangelii Nutiandi”,  que “entre evangelização e promoção humana existem laços profundos”. De tal modo, não se pode pensar a evangelização como ação eclesial sem que as preocupações com a promoção humana lhe acompanhem. Ou seja, a preocupação da igreja não deve ser sua autoafirmação nos espaços públicos, com ritualismos e marchas louvando o ego ou um sentimento de pertença a um grupo. Muito pelo contrário, é debruçando-se sobre o ser humano, com todo homem e mulher, e em sua plenitude, é isso que trabalhou a Teologia da Libertação em dar linhas para se pensar uma Pastoral da Juventude.
 
Papa Francisco em visita ao Brasil em 2013, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).
Papa Francisco em visita ao Brasil em 2013, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Falando em Papa, Francisco optou, a partir de sua raiz latino-americana, enquanto líder da igreja, por humanizar o papado, fortalecendo gestos, preocupações e palavras que encantem os menores. Frisando ações de protagonismo. E, se protagonismo é mover-se, movimentar-se, neste sentido, vale lembrar o difícil gesto da alteridade dentro da prática das juventudes: a missão. Segundo o Papa Francisco no Brasil em 2013, na ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ): ‘Eu peço que vocês sejam revolucionários, que vão contra a corrente; sim, nisto peço que se rebelem: que se rebelem contra esta cultura do provisório’ [1]O trabalho com as juventudes implica envolver sua espiritualidade nos tantos marginalizados do nosso tempo.

Debruçar-se sobre a violência contra a mulher nas periferias e nas igrejas, impregnadas do machismo que julga seu corpo, suas vestes e suas escolhas; sobre o genocídio da juventude negra no Brasil; sobre a intolerância religiosa para com as religiões de matriz africana; ou os diversos casos de morte por homo-lesbotransfobia (palavra que não nos deveria parecer estranha); e, sobretudo, sobre a destruição da terra e a morte dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Reconhecer o protagonismo da juventude deve significar um novo olhar sobre aspectos como a equidade de gêneroidentidade negra, ecumenismo, os direitos LGBTS, dentro e fora de nossas igrejas, além do resgate de elementos da cultura indígena sobre o bem viver (sumak kawsay) em nossa espiritualidade.

Campanha Contra o Extermínio da Juventude da Pastoral da Juventude Nacional
Campanha Contra o Extermínio da Juventude da Pastoral da Juventude Nacional

O desafio da evangelização no século XXI é considerar a importância da religião como espaço de aprimoramento, reconhecimento e engajamento de seus dons a partir da proposta de vida comunitária (reinocêntrica), indo na contramão da sociedade de mercado que tudo mercantiliza, consome e depois descarta. O jovem necessita se reconhecer em outros, por isso a importância das rodas, danças circulares, debates sobre a situação social e econômica de sua comunidade e do mundo, de modo que forje sua maturidade para enfrentar os problemas sociais. Se faz necessário ainda vivenciar seu corpo – sem castrações (proibir sexo) -, e repensar o desenvolvimento de seus desejos e sabores, com responsabilidade e cuidado. 

Desse modo, vivências, dinâmicas, facilitações e experiências de encontros com o outro o permitirão dialogar sobre esses processos, e não o oprimir, na descoberta de uma vida afetiva sadia, cordial e aberta ao pluralismo contemporâneo. Por último, desenvolver uma compreensão histórica, fundamentada na espiritualidade do caminho dos mártires da nossa terra, de uma compreensão do reino, da importância da missão e de um horizonte, no qual a fé deve transpassar a vida em serviço e paixão pelos outros.

 

Pastoral da Juventude: Em busca de uma espiritualidade libertadora
Pastoral da Juventude: Em busca de uma espiritualidade libertadora
Nessa tríade se firma o fundamento sobre qual a evangelização da juventude, ou melhor, a educação no seguimento de Jesus, deve ser praticada, numa pedagogia popular, circular e protagonista, que se encontra na comunidade, no corpo e na alma.
 
AutorEduardo Brasileiro,
Sociólogo, coordena a Pastoral da Juventude em Itaquera e é membro da Igreja Povo de Deus em Movimento.

CATOLICISMO E HOMOAFETIVIDADE – PARTE II

(CONTINUAÇÃO)
Eduardo Galeano - Sonhando um corpo como festa

Por Padre Paulo Bezerra.

  1. Há um “novo arco-íris” no cenário
                A novela “Amor à vida”, da Globo, no último capitulo levado ao ar no dia 31 de janeiro de 2014, saciou o desejado e esperado “beijo gay”, protagonizado pelos personagens Félix e Niko, interpretados respectivamente pelos atores Mateus Solano e Thiago Fragoso. Os pontos de audiência subiram aos píncaros entre ovações de vitória (talvez a maioria dos espectadores) e impropérios de condenação. As novelas não impõem padrões comportamentais. Elas expõem o que está por aí…

            A revolução econômica e política depois dos anos 70, – lembra-nos Comblin, – transferiu Corpos entrelaçados“poderes com repercussões imensas na vida diária das pessoas como na vida social” – a revolução cultural. “Um elemento importante dessa revolução foi, e ainda é, a crítica sistemática de todas as instituições, denunciadas como máquinas de poder e de repressão da liberdade e da personalidade individual” [1]. Não escapou nenhuma das instituições, a começar pela família, educação, Igreja(s) chegando hoje à feroz crítica do Estado estampada nas manifestações de rua que, sobretudo a partir de junho de 2013, evidenciaram que o “gigante acordou”. Ainda impossível prever se acordou de um sonho, apenas, ou se despertou para forjar uma “nova aurora”… Desprestigiadas pela crítica e evidenciada a sua decadência inúmeras instituições e associações entraram no caminho da corrupção que, no dizer de Comblin, “se tornou a nova instituição social”.

            A “revolução cultural” traz a marca do “despertar da liberdade pessoal” e trouxe muitos “valores positivos” e, sobretudo, “valores definitivos contra os quais é em vão lutar”. Enumera-os Comblin: a emancipação da mulher; o despertar da consciência de liberdade dos jovens, “ainda que contaminada pelo consumismo”; uma consciência religiosa libertada do “estilo penitencial de espiritualidade” calcada sobre as exigências de sacrifícios e mortificações em vista dos méritos diante de Deus-juiz. “Depois da revolução cultural, milhões de homens e, sobretudo, de mulheres saíram da Igreja, não por motivos de doutrina ou de crenças, mas porque não aceitavam mais o estilo penitencial da espiritualidade que se ensinava. (…) o que rejeitam não são os dogmas, menos ainda o Evangelho, mas a austeridade de vida, a preocupação constante pelo pecado e o medo que se infundia na consciência do pecador. Os jovens fogem disso como da peste. Não querem nem saber ” [2].

            Depois de séculos de “espiritualidade penitencial” sem páscoa parece-nos “tatuada”, na alma católica, a compreensão de sexo como pecado. Sedimentou-se tal tipo de compreensão filosófico-religiosa de natureza humana como “algo, um conteúdo mais ou menos fixo ou mais ou menos imutável ao qual atribuímos este conceito. Com frequência ouvimos expressões como: ‘isto é da natureza’, ‘isto é contra a natureza’, ‘os seres da natureza’, ‘pecados contra a natureza’ e assim por diante. (…) Estabeleceu-se desta forma uma ordem natural que muitas vezes foi identificada à vontade de Deus ou mais precisamente, à vontade de um conceito sobre Deus. (…) Criou-se assim uma espécie de limite entre a vontade de Deus e a vontade dos seres humanos, como se fosse uma barreira que não poderá ser ultrapassada, uma barreira que funciona igualmente como limite para a vida e a moralidade dos seres humanos” [3] .

Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.
Exposição: Todos podem ser Frida, São Paulo. 2014.

Em todas as épocas e em todas as culturas, no entanto, houve mulheres e homens que sentiram atração por pessoas do próprio sexo. A satisfação de desejos e prazeres está aí a questionar certa visão de “lei natural”. É possível falar da homoafetividade como uma constante na história da humanidade. São preconceituosas as teorias de que os “desejos homossexuais só haveriam de manifestar-se em sociedades que se encontram em situação de declínio. As artes e literaturas de todas as épocas descrevem relações sexuais e de amizade, aventuras e histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo. Tais descrições são provenientes de sociedades e de desenvolvimentos de toda espécie, prósperos e em declínio[4].

            Há um “novo arco-íris” no cenário contemporâneo. A “saída do armário” tomou conta das mega-manifestações das Paradas Gays. “A partir de meados da década de 70, o tema do amor homossexual começou a furar a barreira da censura e dos setores mais reacionários, para chegar até as capas de revistas de circulação nacional – caso da Isto é que, dois anos antes da Time, apresentou em sua capa duas mãos masculinas ternamente enlaçadas” [5]. Na mesma intensidade e direção foram o teatro e o cinema.

            O “novo arco-íris” LGBTs surge depois de catastróficas tempestades e torrenciais chuvas de granizos condensadas pelo gelo da homofobia levada às mais baixas temperaturas pelo pensamento único e deontológico. A bandeira foi desfraldada de tal maneira que recolhê-la será contrassenso . Suas sete cores não se impõem. Tão somente se expõem e se apresentam. Como o Arco da Aliança do Livro Sagrado do Gênesis mendiga também  um lugar novo para a humanidade: nunca mais o antigo dilúvio! Convida à comunhão, ao prazer, à festa, à fecundidade de todo relacionamento, mesmo que nem sempre reprodutivo da espécie humana.

            A existência humana é um caleidoscópio que se reparte em cores. No dizer de Antônio Moser, “se há algo que nos intriga é o caráter enigmático da vida humana e de todos os seus componentes.  (…) Entre as questões mais enigmáticas encontram-se as que se referem à sexualidade. Por isso é compreensível que, desde sempre, e das mais diversas formas, a humanidade tenha se interrogado sobre a proveniência e o sentido desta força estranha e determinante da vida humana (…)” [6]. E, deste caleidoscópio, as mãos GLBTs não são as únicas a manipulá-lo, embora aptas a tal.

  1. Conclusão: aspirações intuitivas
                Enquanto a sexualidade for “engessada” em categorias dogmáticas (teologicamente desencarnada)… Enquanto for motivo de “curiosidade sobre a vida alheia” (antropologicamente desprezada)… Enquanto for “reprimida” (psicologicamente não considerada)… Enquanto for produto mercadológico de violência e de frustração (socialmente despersonalizada)… Enquanto for reduzida a parâmetros culturais (filosoficamente desconhecida)… Enquanto for devassada, chantageada, criminalizada… é porque “temos medo do que somos e inibimos nossas expressões naturais, uma vez que ficamos tolhidos por injunções deformadoras de nossas personalidades” (Eduardo Hoonaert).

            Vergados, então, sob a “espada de Dâmocles” rejeitamos, conscientes ou não,  que a “sexualidade é uma moradia com muitas janelas abertas para o mundo” [7].

AutorPe. Paulo Sérgio Bezerra
pároco de Nossa Senhora do Carmo – Itaquera
Diocese de São Miguel Paulista

[1] JOSE COMBLIN, op. cit., p. 40.
[2] JOSE COMBLIN, op. cit., p. 43
[3] IVONE GEBARA, “Visitando o conceito de natureza humana”, in: Concilium Revista Internacional de Teologia, 336 (2010/3), Vozes, Petrópolis, p. 141 [438] – 142 [439].
[4] NORBERT RECK, “Desejos perigosos –  o discurso católico sobre a sexualidade homossexual”, in: Concilium Revista Internacional de Teologia, 324 (2008/1), Vozes, Petrópolis, p. 14.
[5] JOÃO SILVÉRIO TREVISAN. Devassos no paraíso, Editora Max Limonad, São Paulo, 1986, p. 175.
[6] ANTÔNIO MOSER. O Enigma da Esfinge: a sexualidade. Vozes, Petrópolis, 2004, p. 21.
[7] ANTÔNIO MOSER, op. cit., p.35.

CATOLICISMO E HOMOAFETIVIDADE – ensaio de aspirações intuitivas (Parte I)

Por Padre Paulo Sérgio Bezerra.

“O Catolicismo tem sido, durante séculos, um caldo de anti-sexualismo e, o eco das condenações eternas, ainda ressoam em nosso subconsciente cultural. Temos medo do que somos e inibimos nossas expressões naturais, uma vez que ficamos tolhidos por injunções deformadoras de nossas personalidades” (Eduardo Hoonaert).

Curso de Verão de 2015 debateu sexualidade como caminho da dignidade.
Curso de Verão de 2015 debateu sexualidade como caminho da dignidade.

1. INTRODUÇÃO

             A proposta do tema era “religião e homoafetividade”. Optamos por “catolicismo e homoafetividade” em vista da amplitude de extensão do termo “religião”. Os próprios termos “catolicismo e homoafetividade” são, de per si, um universo de produção teórico-prática a desafiar a própria reflexão e vivência dessa realidade à qual se referem bilhões de seres humanos.

 “Catolicismo e homoafetividade”, historicamente se confrontaram e se antepuseram. Por este binômio se acenderam “fogueiras de inquisição” e “fogueiras de discussões”, na maioria das vezes, produzindo algozes e vítimas. A Teologia da Libertação se propõe a debatê-lo.

A cruz é política! Ela denuncia sistemas de morte (legitimados por linguagens religiosas) e marcam em seu paradoxo a resistência & a luta: haverá ressurreição, a imaginação de novos mundos em que os corpos vivam em sua intensidade e vontade! O desafio, ante a denúncia da crucificação, é descer da cruz as vítimas, as lésbicas, os gays, as(os) travestis... O desafio é fazer ressurreições, agora, ali, lá longe, pontual, ampla...  A carne pulsa, deseja, quer, arrepia: pela vida!
A cruz é política! Ela denuncia sistemas de morte (legitimados por linguagens religiosas) e marcam em seu paradoxo a resistência & a luta: haverá ressurreição, a imaginação de novos mundos em que os corpos vivam em sua intensidade e vontade! O desafio, ante a denúncia da crucificação, é descer da cruz as vítimas, as lésbicas, os gays, as(os) travestis… O desafio é fazer ressurreições, agora, ali, lá longe, pontual, ampla…
A carne pulsa, deseja, quer, arrepia: pela vida! (Daniel Souza, teólogo UMESP)

A complexidade escondida atrás dos termos desafia a irredutibilidade de posicionamentos dogmáticos rígidos tanto quanto dogmáticos laxistas práticos. Embora o catolicismo ateste, em sua história um “caldo de anti-sexualismo”, agora vê-se premido pela “mudança de época” a abraçar um novo paradigma de compreensão teórico-prática da sexualidade humana na qual a “homoafetividade” se firma como uma das expressão irrefutáveis da vivência da própria sexualidade.

Se de um lado paira a sempre ameaçadora espada de Dâmocles – expressão pérfida dos autoritarismos de todos os tempos e matizes -, por outro, a marcha pascal da consciência da liberdade – monumento martirial da dignidade humana -, é de atualidade insurgente e imprescindível. Somos, inexoravelmente, seres humanos sexuados, fendidos e partidos, à cata custosa e prazerosa do que possa, humana e divinamente, saciar os desejos – inclusive o desejo de Deus.

2. Há um “novo” Francisco no cenário

Brindamos, no catolicismo, o kairós da eleição de Mario Jorge Bergoglio,  o Papa Francisco. Surpreendente irrupção do Espírito para alegria das bases eclesiais e para temor das cúpulas eclesiásticas.

Inquirido sobre “quem é Jorge Mario Bergoglio”,  ele respondeu: “sou um pecador para quem o Senhor olhou” [1]. Ousado, afirma: “penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e a mundo” [2]. Sua resposta aos jornalistas, durante o voo do Rio de Janeiro a Roma, sobre  os homossexuais correu mundo: “se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa-vontade, quem sou eu para julgá-la?”     Para Francisco, o Concílio Vaticano II não é apenas fonte bibliográfica mas convicção eclesial, ao insistir: “uma pastoral em chave missionária não está obsecada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário. (…) Isto é valido tanto para os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral” [3].

Estamos num mundo novo e, quiçá, numa etapa nova da História da Igreja. O Pe. José

Comblin afirma que a partir dos anos 70 iniciou-se o desmoronamento da Cristandade: “a grande revolução total da sociedade ocidental: revolução na ciência, na economia, na política, na cultura; revolução total e profunda com consequências de uma revolução na ética e na religião. (…) Antigos poderes desapareceram e apareceram novos poderes. Agora sim, estamos chegando ao fim da cristandade. Mas ainda não é o fim da consciência de cristandade dentro da Igreja. Pelo contrário, toda a instituição continua funcionando como se nada tivesse mudado e como se a Igreja ainda tivesse o mesmo poder social de sempre. (…) Ora, o fim da cristandade significa que a evangelização e a pastoral já não podem ser feitas a partir de uma posição de poder. (…) Este é o desafio prático ainda não assumido coletivamente pela Igreja: reconhecer que não se pode mais evangelizar a partir de uma posição de poder, mas apenas numa relação de seres humanos com seres humanos iguais. Na teoria, ninguém contesta, mas na prática, tudo continua como se a Igreja ainda tivesse na sociedade o poder que teve até os anos 70 do século XX” [4].

Leonardo Boff, em encontro promovido pelo grupo de leigos, religiosas e padres da Zona Leste de São Paulo, denominado IPDM (Igreja, Povo de Deus, em movimento), diante de 1.300 pessoas que acorreram para ouvi-lo, dizia: “ou a Igreja assume os novos paradigmas teológicos, culturais, ecológicos na evangelização ou permanecerá uma piedosa seita mariana ocidental”.

            No coração e no pensamento do Papa Francisco não estarão tais preocupações quando confessa: – “Deus manifesta-se numa revelação histórica, no tempo. O tempo inicia os processos, o espaço cristaliza-os. Deus encontra-Se no tempo, nos processos em curso. Não é preciso privilegiar os espaços de poder relativamente aos tempos, mesmo longos, dos processos. Devemos encaminhar processos, mais que ocupar espaços. Deus manifesta-Se no tempo e está presente nos processos da História. Isto faz privilegiar as ações que geram dinâmicas novas. E exige paciência, espera” [5]– ?

Há um “novo” Francisco no cenário: ele vem “do fim do mundo como bispo de Roma”, da Argentina. Vem da América Latina, da proximidade fecunda com a Teologia da Libertação e da compartilhada páscoa dos “Mártires da Caminhada”. Traz na memória o brutal assassinato, por paramilitares do Exército de El Salvador em 16 de novembro de 1989, de seis padres jesuítas e duas senhoras daquela comunidade. Vem das favelas de Buenos Ayres, dos bem articulados planos diocesanos de pastoral e da experiência de ter sido  presidente da Comissão de Redação do Documento Conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe – o Documento de Aparecida.

Processualmente o catolicismo vive o kairós-apelo de deixar de ser um “caldo de anti-sexismo e o eco das condenações eternas” a torturar o “subconsciente cultural” da humanidade para tornar-se a força samaritana junto aos caídos à beira do caminho.

Em síntese, saudamos Gonzales Fauz quando afirma: “reivindicações que antes pareciam heréticas agora são palavras do Papa. A Teologia da Libertação tem o mérito de ter suportado maus-tratos como Jesus”.

Há um “novo” Francisco no cenário cuja imagem não se sujeita às pesquisas de opinião pública, nem se intimida frente às artimanhas do poder eclesiástico.

CONTINUA NA PRÓXIMA QUINTA.

Pe. Paulo Sérgio Bezerra
pároco de Nossa Senhora do Carmo – Itaquera
Diocese de São Miguel Paulista

[1] Entrevista Exclusiva do Papa Francisco ao Pe. Antonio Spadaro, SJ, Paulus/Loyola, 2013, p.8.
[2] PAPA FRANCISCO, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 16.
[3] idem, ibidem, n. 35-36.
[4] JOSE COMBLIN. “As grandes incertezas na Igreja atual”, REB, fasc. 265, janeiro 2007, Vozes, Petrópolis, p. 37-40.
[5] Entrevista exclusiva do Papa Francisco, op. cit., p. 27.